
Estar no palco, estar em cena, seguir o mínimo movimento: ali, aqui, nós, atuadores, nós atores, nós os que mentimos por querer, os que mentimos por prazer. Quando estamos assim, de corpo fragilizado fortalecido pela mentira nossa de cada dia, abrimos os braços para a vida e damos as costas para a morte.
E a cada vez, a cada mentira pregada, puxamos nossa vida pra fora pra oferecer a quem queira estar ali para ver – para aqueles não tem medo de saber. Puxamos nossa vida e rimos da morte, porque criamos a ilusão de eternidade a cada palavra dita. Sim, porque o tempo pára, o tempo é extático, imóvel, enquanto estamos atores no palco: a morte que lá no fim nos espera não existe, brincamos um pouco de deuses e enganamos tempo e morte, primos irmãos, sempre à nossa espreita.
De braços abertos – dando as costas para a morte – enquanto o tempo não existe mais por hora, hora e meia, tudo o que pulsa, tudo o que impulsiona, tudo o que treme, sua, sangra e dói está ali, mesmo que invisível: o ator é a carne viva, é a ferida exposta, e o sangue que não se pode estancar, é a gota de suor que nasce logo que a outra já escorreu corpo abaixo. O ator transborda em palavra, em gesto, em olho. É o movimento que nasce e continua. É aquele que luta implacavelmente contra o efêmero, sabendo, sofrendo, rindo e chorando de um fim que um dia virá.
E enquanto o fim não vem, nós ali, no palco estamos, num moto-contínuo de corpo, mente, coração, carne e nervos. A dor que dá prazer, a palavra que pesa na língua, o corpo que mesmo exausto nunca descansa, a mente alerta, o grito preso na garganta.
Os braços abertos pra vida, de costas pro fim, burladores do esquecimento, farsantes do sofrimento, vândalos da repetição, loucos que acreditam que o tempo pára. E ele pára – não há morte no fim, porque correremos sempre dela, porque o palco é o nosso abrigo, nossa casa, nosso temor, nosso prazer fugaz, é para onde todos vão desembarcar.
Nós, enganadores da morte, desejamos a todos um bom espetáculo.