Nunca achei que fosse tão fácil para O Outro, deixar para trás.
Fui deixando. Deixei. A cada dia deixo um pouco mais.
O mar imenso de coisas a fazer, entretanto, está em ressaca. Bravo.
O Outro deixa pra trás e volta a navegar nas suas próprias águas, ironicamente, bem mais amenas. No mar do Outro, não há despertadores que exigem hora certa pra acordar - enquanto às vezes ainda está escuro. Não há tanques de roupas manchadas de criança de molho há dias, a serem esfregadas. Não há a preocupação dos verbos lavar, secar, guardar, dobrar, arrumar, organizar.
O Outro tem que organizar suas listas de músicas, sua lista de amigos, suas listas do que assistir. Daqui, eu organizo e reorganizo mentalmente, projetando um futuro ansioso, naquele mar bravo, de ressaca, com suas ondas batendo incessantemente.
Busco descanso no sono, mas os sonhos perturbadores não me deixam evadir. Acordo com pedidos de mamadeira, de brinquedos, de desenhos, de atenção exclusiva, de alimento. Providencio, arranjo, alcanço, o relógio corre.
O Outro, acorda e vai em seu tempo. Tem o seu tempo. Com algumas exceções semanais. Não vai aprender a cozinhar - nem cogita essa remota possibilidade. Não será encontrada na sua despensa um pacote de feijão, de arroz. Serão encontradas coisas mais gostosas pra deixar a criança feliz. Será um grande sinônimo de diversão - uma aventura - dois, três dias quem sabe, por semana, e depois a mochila cheia de roupas sujas, e uma criança cheia de saudade de algo tão fora de sua rotina.
O Outro dará banhos, lógico, alimentará e proporcionará diversão. Mas terá seus retornos quase que diários à adolescência, de onde na verdade nunca saiu totalmente.
Daqui, pulando ondas furiosas de dívidas, de trabalho levado pra casa, de preocupações diárias, de corridas de carro, de manchas a remover, de compras a fazer ( não pode faltar leite! papel higiênico!frutas!pão!), acabo sentindo um princípio inevitável de rancor, até mesmo um tanto de inveja dessa condição masculina, sempre tão livre, com suas amarras maleáveis, flexíveis.
Pra mulher, tem que sobrar os adjetivos "guerreira", "forte", "batalhadora", quando, muitas vezes, ela também tem desejos de morar, como o Outro, na adolescência. Quando está, a duras penas, tentando pular essas ondas ininterruptas desse mar que é a rotina, o dia-a-dia, a imensa responsabilidade de um voo solo, com a cria, pelo cotidiano.
Valerá a pena, dizem. Vai te fortalecer. Vai te libertar. Vai te deixar mais feliz.
Já sinto essas predições acontecendo.
Mas nunca imaginei que seria tão mais fácil ser O Outro, com suas periódicas incursões na adolescência. Com suas músicas, seu "um milhão de amigos", seu compromisso mais esporádico.
Valerá a pena, repetem.
Sim, valerá. Isso já é uma certeza.
Vou conjugar todos os verbos que tiver. Vou acordar pra cada dia, mesmo querendo sair correndo para longe, e fazer o que tem que ser feito. Vou arcar com a solidão do cotidiano. Vou botar a cria debaixo da asa e voar, ao mesmo tempo que vou ter que ensiná-la a fazer o mesmo.
Vou ser livre, apesar da escravidão.
Vou carregar o peso da tristeza, da responsabilidade, das miudezas tão cansativas do cotidiano.
Por que?
Porque quero, um dia, sentir orgulho de mim. Pura e simplesmente isso:
orgulho de mim.