Casulos quentes, confortáveis - dentro dele você penteia o cabelo, veste a roupa e vem para o mundo lá fora, até onde a corda invisível foi programada para ir. Os dias programados na agenda, de papel e mental. As tarefas enfileiradas como xícaras ( de líquidos quentes, confortáveis ), velhas conhecidas, amáveis e silenciosas. A rotina. O fio invisível também ordena a mente. Tudo ao redor é conhecido, e até mesmo o trajeto novo é familiar - se vai para o mesmo lugar. É fácil ocupar o varal, esvaziar a pia, aquecer a água, aquecer os pés.
Mas acontece. E sempre algo acontece. Só que de dentro do casulo é meio embaçada a visão, é sempre atrás do vidro, dos fios entrelaçados. Acontece ali dentro, frestras, por onde se escapa. O pé fica lá dentro, mas o corpo sai. A mente fica, a mente vai. O outro pé tropeça, traz tudo pra fora. E você fala com você mesmo - sabia que tanto assim, aqui fora, acontecia? O tempo todo, o tempo inteiro. Quem parou foi você. Quem se cobriu, foi você... Mesmo sozinho, mesmo confuso, mesmo perdido, o que acontece, e sem parar, vai acontecer lá fora. Talvez seja hora de ver isso sem nada que obstrua a visão. Sem vidros, sem fios. Vai fazer frio, vai chover na cabeça, vai gelar a alma. Mas vai ter a música do mundo tocando, tocando sem parar. E seus instrumentos. E os que executam esses sons.
Dá medo. Dá covardia. E por que não? Pensa. Os fantasmas vão continuar a arrastar as correntes aí dentro, os macacos vão pular com mais gana dentro do sotão, então, por que não? O casulo vai estar vazio quando você voltar, você nem vai reconhecer o lugar. E por que não? Algumas coisas, depois que acontecem, não podem ser ignoradas. Há um abrir de olhos. Há uma mudança na posição do prisma, da lente, da luz, do foco. E isso traz coisas novas a ver, que, veja só, estão sempre ali, passando, como a água do rio. Pode-se mergulhar, olha bem, pode se secar à margem, mergulhar de novo, pescar, acampar na beira, só caminhar. Tudo temporário. Tudo efêmero. Tudo acontecendo.
Porque estar vivo, se sentir vivo, é estar acontecendo também, de dentro, pra fora, é um acontecer junto, é simplesmente pensar antes no "sim" do que no "não", mesmo optando pelo não, o sim vai se tornando uma opção, cativa...
Acordar, acontecer... Os tempos jogam estes verbos na porta, no colo, na mente. Tem que ser.