8 de nov. de 2013

Um passo de volta

O cursor pisca, pisca, pisca. Na tela branca. Mas minha mente não está tendo um branco, eu penso: não existe nada mais habitado nesse m undo do que a minha mente. Falta o movimento migratório das palavras para a tela - veja só, já está acontecendo. Não sei se é como andar de bicicleta - só subir e sair pedalando, vento na cara, liberdade - ficar muito tempo sem escrever é ter que lidar com um enferrujamento, com uma dureza das palavras, com uma dificuldade sim, de transpô-las. Porque às vezes acompanha também a distância de ler, uma distância de tempo, espaço, de alimentação de palavras, de imaginação. Na tv, vi uma campanha de doação de livros: "Liberte o autor da estante". Logicamente tomei pra mim, aprofundei, pensei bastante sobre isso - pensar demais, calvário e redenção da minha vida - e deduzi que eu preciso libertar meus autores lendo-os novamente, ou melhor ainda, lendo os que eu ainda não li. Retroalimentar. Pra poder, com isso - como uma via de acesso- libertar também as minhas palavras. Mas de uma maneira menos no modo-paranóia, sempre tentando  buscar a perfeição do aprofundamento, essas coisas utópicas que eu sempre valorizei. Mas assim, escrever. Deixar vir. Isso sempre fez parte de mim, isso me rendeu até mesmo prêmios, temporadas em teatros, até mesmo uma sessão de autógrafos na Feira do Livro. Por que negar? Por que fugir? Por medo, talvez, de ver que fico trancando os pés na bicicleta, que a correia tá custando a engrenar, que me cansa o peso da marcha? Certamente... Mas nesse período, em que eu estou já há um ano numa vida muito diferente, chega um momento em que a coisa fica gritando por dentro,
e eu sinto, meio dramaticamente é claro, que preciso dar vazão, e pra isso, não posso ficar com medo de não ser profunda, de não ser perfeita, de não ter o classicismo que eu mesmo, secretamente, inventei pra mim, azar o meu...
Porque eu vejo que: existe o medo de escrever. A vontade de fugir de escrever. Os pretextos que se inventa pra não escrever. As milhares de coisas mais fáceis, mais divertidas, mais simples e de satisfação imediata do que escrever. E eu me pergunto - por quê, se é uma coisa que eu sei fazer? Será que eu realmente gosto de escrever? Lembro do Caio Fernando em carta a um amigo, também escritor, algo assim - mete a faca no peito e escreve. Eu já acho que é mais no meu caso, mete a faca no cérebro. Não é uma imagem tão poética, mas os arquivos estão se acumulando por demais e o funcionamento vai se comprometendo.
Não era bem isso tudo o que eu queria dizer. E quando é? As palavras são e sempre serão símbolos. Eu ia falar sobre a dualidade perpétua que vem me massacrando. Uma espécie de clássico, de luta do bem(pensamentos bons)x mal ( maus pensamentos) que a minha mente sobrecarregada vem atravessando. E nisso entra a autosabotagem, entra a autoestima combalida, entra muita coisa que desemboca aqui, agora, nessas linhas. E eu lembro dessa frase que me acompanha desde a adolescência, aliás, duas frases -  "a arte salva" e "a arte existe para que a verdade não nos destrua". E dentro da palavra verdade, como aquelas bonequinhas russas, as matrioskas, coloca-se mil outras - mente, vida, medo, amor, ódio, ilusão. O que seria essa verdade? O que passa na minha mente? São tantos pensamentos intrusos, que a verdade fica tão particular, tão unilateral, tão distorcida. "Sei que nada sei, sei que nada sei,mas ainda assim..." eu repito pra me sentir bem - eu vejo a loucura ronda, vejo que na água posso estar perdendo o pé, então alguns sinais de alerta são emitidos. E dessa vez eu quis, eu decidi, voltar. A escrever. Não gosto de fazer promessas, porque muitas eu já fiz e não cumpri. Não há um contrato. Apenas queria deixar que a escrita me salvasse, que me deixasse vislumbrar a verdade sem que ela se torne uma bomba-relógio.
Mas voltei, de alguma forma, várias palavras se seguiram depois do cursor piscando, e isso pra mim, é muita, mas muita coisa.