8 de mar. de 2011

"Tem que ser macho pra parir" ( Mari Nisemblat)

Poderosa Afrodite,

No dia de hoje, derrama de uma ânfora sagrada, algumas gotas de sabedoria, de classicismo, de elegância sobre nosso gênero tão desgastado.
Sabedoria, que essas gotas escorram sobre aquelas horas e horas esperadas pelo telefonema que nunca vem, e sobre as sequenciais justificativas que criamos para a ausência do mesmo, sempre inventando desculpas para o simples desinteresse. Que essas gotas, ó, Poderosa Afrodite, tenham o poder de paralisar mãos nervosas sobre teclados de celulares, impedindo os dedos de enviarem mensagens raivosas, descontroladas, humilhantes e pedintes de corações mendigos, sedentos de atenção, carentes profissionais.
Classicismo, ó Poderosa, sobre aquelas de nós que balançam a bunda em raio-x constante, fazendo disso o seu único meio de viver e criando, às vezes, a ideia de que quem estuda e trabalha realmente pra ganhar a vida é recalcada, invejosa e feia; sobre as que pernoitam nas camas de bronzeamento, açoitando o que é de mais frágil e perecível, nosso envoltório desprotegido ao câncer de pele; sobre as que estampam o Olimpo da beleza perfeita e nos obrigam, pobres mortais, a suar em bicas nas academias da vida e passar fome nas dietas obssessivas porque o modelo mais rechonchudinho já saiu de moda lá na Renascença.
Elegância, Poderosa Afrodite, elegância que escorra em suave gotas restauradoras sobre nossas reles cabeças quando as predadoras de nossa espécie perderem o respeito pelas fronteiras de nosso território, queimando nossa linha pelos orkuts, olhares, e-mails ou abordagem ao vivo e a cores. Elegância em doses ainda maiores quando o momento da discussão chegar, para que não recorramos a termos de baixo calão, reforçando, a cada palavra, o tal mito de que somos descontroladas, loucas e chatas.
Paciência, ó, Poderosíssima, paciência para suportar o nojo, a raiva, quando empurradas mais uma vez pelo machismo que ainda reina; para continuar, mesmo quando agredidas verbalmente ( e fisicamente) com supostas cantadas que na verdade são a eterna reafirmação do macho que se dá ao direito de expor sua lascívia sem limites; paciência para com aquelas nossas representantes que, orgulhosas de sua ignorância e de seu único meio de trabalho, o corpo, nos fazem, por tabela, suas semelhantes, embora partilhemos somente o mesmo gênero.
Paciência, ainda, para ensinar, tal qual professora que alfabetiza, os homens de que não somos a mãe fazedora de comida, lavadora de roupas e cuidadora de filhos e com o saboroso plus da ótima abertura de pernas.
Poderosa Afrodite, que isto está ficando sério demais - acima de tudo, bom humor, gotas generosas de bom humor, litros, um banho completo, para atravessar os períodos de seca criativa, de enchente hormonal, de invasões bárbaras à nossa intimidade, de entresafra entre o ser e não ser, sempre a questão. Bom humor pra rir de nós mesmas, mesmo quando não achamos a menor graça.


Dedicado à
Cecília, Mariana e Nina Nisemblat
Luciane Glaeser
Carla Soares e Viviane Sallati
Marlise Damin,Glau Barros, Vanessa Greff,
Ligia Sávio, Clotilde Favalli e Mara Jardim
Clarice, Virginia, Cecília, Dorothy, Ligia, Jane, Florbela, Emily
e outras tantas que honram nosso gênero.

Voltemos agora à programação normal.

7 de mar. de 2011

Why so quiet?

Como retorno triunfal ao blog, dedicarei alguns posts a temas a cerca do nosso abalado, polêmico e sempre instigante mundo feminino, afinal, Dia Internacional da Mulher - vá buscar sua rosa murcha nas melhores casas de comércio do burgo.

Fim de tarde, cabeleireira. As coisas boas de um salão de beleza - aquelas revistas todas que eu não gasto dinheiro, nunca, tipo Nova, Claudia, Contigo...Sento pra esperar - ser atendida na hora marcada? Em salão de beleza? Acho que é lenda urbana. Então, leitora voraz, me apego num texto sobre uma mulher que ficou perdida numa floresta, sozinha, por 17 dias. Ao meu redor, a parte ruim do salão de beleza, as mulheres conversando em voz alta ( geralmente irritante), aquelas outras sentadas observando, com olho de lince, cada movimento da cabeleireira no cabelo de alguém, pelo espelho. Mas a dona é gente boa e ótima profissional. Vou pra cadeira lavar as melenas, levo a revista junto, daqui a pouco tenho que ir pra cadeira cortar a franja, secar, não vai dar tempo de ler tudo. Nesse ínterim, sentada, sossegada, chega a manicure da casa, para ao meu lado e diz algo como: "E tu, que eu não ouvi a voz ainda até agora? Não falou nenhuma palavra! Tu é quieta, hein?" Bom, logicamente a moça era a voz mais ouvida dentro do estabelecimento até então, aquela da voz alta e irritante ( mas eu estava tão na paz, dentro da historinha da revista Claudia, que nem me afetou tanto, ouvia ao longe, só). A cabeleireira, que subiu ainda mais no meu conceito "gente boa" disse, "Ah, ela não é de falar muito. Eu, às vezes, até pago pra não falar". E eu, subitamente arrancada do meu silêncio, disse "Por que será que os quietinhos incomodam tanto os faladores?"
Várias perguntas me vieram à cabeça, naquele instante, com a costumeira desordem. Por que mesmo, ó Deus, por que o silêncio alheio incomoda tanto as pessoas? Por que os quietos desinquietam os falastrões? Por que aquela fulana, que vinha monologando há mais de meia hora, pra quem quisesse e quem não quisesse ouvir, tinha que se dirigir à mim, pobre criatura recolhida ao seu insignificante ( pelo visto nem tanto) silêncio e paz, e me invadir com perguntas, sendo que nunca a tinha visto antes, e não dera a mínima abertura para tanto?
Aí me veio uma frase que li há tempos na Internet, no blog Nervocalm Gotas - "os quietinhos são quietinhos porque os faladores nunca fazem perguntas". Ao que eu acrescentaria, de acordo com o episódio-salão de beleza - "nunca fazem perguntas com a única exceção da fatídica 'por que tu não fala nada?' "
E olha que esse é o salão mais light que frequentei na minha cidade. Pequeno, discreto, gente como a gente. Sim, os salões de beleza em geral são muito concentradores de mulheres. E mulheres, segundo reza a lenda, falam muito. Mas como evitar a generalização de tudo é, pelo menos pra mim, um aprendizado constante, vamos nos ater às exceções. Que podem ser muitas. E deixemos os quietinhos um pouco mais em paz. Talvez eles nãos sejam tímidos, apenas não tem nada à dizer naquele momento, o que é melhor do que abrir a boca só pra dizer besteiras - infelizmente a opção mais escolhida.
Ah, as mulheres quietas... Elas tem um mistério, elas despertam curiosidade, elas podem sim, ser interessantes. Quantas vezes eu vejo e ouço outras representantes do meu gênero alardeando, com orgulho, seu hábito de falar, falar, falar pelos cotovelos? Talvez seja a hora dos quietos, e quietas, especialmente, alardearem, com mais orgulho, sua capacidade de silêncio, de não ficar despejando sua vida ( com detalhes íntimos de brinde) pra tudo que é lado, e depois retornarem com a queixa que a siclana é fofoqueira. Calma lá, você foi contar pra colega, pra conhecida, pra moça do café,sobre sua vida sexual? Sobre seu antidepressivo? Sobre sua dívida enorme no banco? Como dizia Quintana, seu melhor amigo tem um melhor amigo, para o qual conta tudo, e conta de você inclusive. E isso que é melhor amigo...Agora imagine a moça do café, a conhecida, a...manicure?
Devo estar pecando pelo exagero, é o calor do momento. Claro que todos estão sujeitos a escorregões, a escapadelas verbais que virão te cobrar mais adiante. Não é o caso de pregar a total reclusão verbal, o que pode passar uma antipatia, uma arrogância ( outras pechas das quais os quietos sofrem...). Mas... pelo direito de ficar em silêncio, quando se pode ficar em silêncio. Pelo direito do quieto ser falador, também, quando tiver vontade, ou, para ser mais realista, quando tiver oportunidade, a oportunidade que os faladores podem conceder, também, vez por outra.