"autopermissão para fluxo de consciência"...
a máscara pegada a cara. versos. e o sol lá fora, enquanto deveria estar dentro, o sol. sobre todas as coisas que o homem criou para se considerar eterno enquanto os cientistas, depois dos vampiros, procuram a fórmula da vida eterna. uma máscara bem gigante, põe o livro na frente que assim ajuda bastante. hoje deixa o sol ferver teus miolos, que talvez eles trabalhem mais e te façam ver pelos furos da máscara que o mundo tá tão cheio, menino, tá tão cheio de coisas e de pregos que fundamentam mais essa coisa ue se apegou mascaradamente à cara. o pior cego é aquele que não quer ver. fura os olhos da máscara e feito Édipo, sai, pra não ver mais, porque esse é o pior castigo. o olho Dele que tudo vê, narrador onisciente, mas tão pouco onipresente. opa, opa, opa, espera aí, o que estou dizendo? sol lá fora, a vida é agora, a vida é já, e se não sabe tu disso, ó menino, os milionários autores de auto-ajuda largamente te dirão.pessoa falou, pessoa avisou. sentado na sua pedra-de-sábio, com os marulhos do mar melancólico português- mar imaginário visto da janela de escritório - visionário, ele, logo ele, quis tirar a máscara. mas estava pegada a cara.
sábado de sol..............................sol, sol, sol. mar, mar, mar.lua, lua, lua. as coisas boas tem três letras?
13 de mai. de 2006
12 de mai. de 2006
ando ( entre os dedos)
Ando inquieta, ando nervosa. Ando pelas paredes internas subindo. Decerto estou de novo existindo.
Uso sobre o corpo, com infinitos fios tramados, coisas que chamam de roupas. Que tem de ser dobradas, guardadas, usadas, lavadas ( eventualmente passadas ), estendidas, dobradas. Guardadas, usadas, e por aí, adiante, um tênue conceito de moto-contínuo
Uso entre os dedos um cilindro que chamam de cigarro. Que tem de ser aceso, tragado e exalado e incomodar os entes alheios, portanto criticado e que faz um mal incalculado.
Uso no ombro um recipiente de couro ou imitação do mesmo material ou de pano ou de vovó-crochê conforme a indicação que o estado de espírito dê que chamam de bolsa que vira um poço sem fundo onde mãos frenéticas nunca acham as chaves nos momentos mais críticos e que também serve, dizem, para carregar objetos úteis-fúteis que atestam minha identidade ( ainda ) não encontrada
Ando inquieta, ando nervosa. Ando pelas paredes internas subindo. Desconfio que estou de novo existindo.
Uso entre os dedos um negócio retangular, as vezes de capa dura, outras mole, outras bem sebo-brochura, que chamam de livro. Que tem que ser aberto, e lido, que estraga os olhos, que tem que ter significados mítico-místico-antropofísicos e que provoca dependência irremediável e gastos além do orçamento para os maníacos, enquanto oferece alegre e perversamente aos globos oculares e mentes ávidas o delicioso escapismo
Uso entre os dedos, ou, para dar a exatidão dos que dela necessitam, debaixo deles, pequenos quadrados com letras gravadas que chamam de teclado-de-computador. Que tem um ruído confortador, que formam letras flutuantes que formam palavras flutuantes numa tela iluminada ( que chama de monitor, tela-de-computador ) pra depois formar frases que por sua vez formam textos.
E
sobre todas as coisas
é este o uso – depois de muitos meses de um negócio que chamam de bloqueio-criativo
que, inquieta e nervosamente
me atesta:
com toda a certeza, é mesmo muito provável que eu estou
de novo
existindo.
( e pelas paredes internas seguirei subindo ).
sobre todas as coisas
é este o uso – depois de muitos meses de um negócio que chamam de bloqueio-criativo
que, inquieta e nervosamente
me atesta:
com toda a certeza, é mesmo muito provável que eu estou
de novo
existindo.
( e pelas paredes internas seguirei subindo ).
4 de fev. de 2006
Enganadores da Morte

Estar no palco, estar em cena, seguir o mínimo movimento: ali, aqui, nós, atuadores, nós atores, nós os que mentimos por querer, os que mentimos por prazer. Quando estamos assim, de corpo fragilizado fortalecido pela mentira nossa de cada dia, abrimos os braços para a vida e damos as costas para a morte.
E a cada vez, a cada mentira pregada, puxamos nossa vida pra fora pra oferecer a quem queira estar ali para ver – para aqueles não tem medo de saber. Puxamos nossa vida e rimos da morte, porque criamos a ilusão de eternidade a cada palavra dita. Sim, porque o tempo pára, o tempo é extático, imóvel, enquanto estamos atores no palco: a morte que lá no fim nos espera não existe, brincamos um pouco de deuses e enganamos tempo e morte, primos irmãos, sempre à nossa espreita.
De braços abertos – dando as costas para a morte – enquanto o tempo não existe mais por hora, hora e meia, tudo o que pulsa, tudo o que impulsiona, tudo o que treme, sua, sangra e dói está ali, mesmo que invisível: o ator é a carne viva, é a ferida exposta, e o sangue que não se pode estancar, é a gota de suor que nasce logo que a outra já escorreu corpo abaixo. O ator transborda em palavra, em gesto, em olho. É o movimento que nasce e continua. É aquele que luta implacavelmente contra o efêmero, sabendo, sofrendo, rindo e chorando de um fim que um dia virá.
E enquanto o fim não vem, nós ali, no palco estamos, num moto-contínuo de corpo, mente, coração, carne e nervos. A dor que dá prazer, a palavra que pesa na língua, o corpo que mesmo exausto nunca descansa, a mente alerta, o grito preso na garganta.
Os braços abertos pra vida, de costas pro fim, burladores do esquecimento, farsantes do sofrimento, vândalos da repetição, loucos que acreditam que o tempo pára. E ele pára – não há morte no fim, porque correremos sempre dela, porque o palco é o nosso abrigo, nossa casa, nosso temor, nosso prazer fugaz, é para onde todos vão desembarcar.
Nós, enganadores da morte, desejamos a todos um bom espetáculo.
27 de jan. de 2006
“A arte existe para que a verdade não nos destrua”.

Por que temos medo de ver as coisas como elas são?
“A arte existe para que a verdade não nos destrua”.
A arte existe para filtrar essa verdade. Pra que a verdade seja uma representação. Pra que o que há de bizarro, de assustador, de degradante – ou seja, praticamente tudo – seja também um horror representado. Pra que, cercados de ilusões, nós não possamos enxergar que. “Estar vivo, realmente vivo, é terrível.”
Artistas suicidas. Suicidas artistas.
Descobriram a verdade que a arte não pode encobrir? Descobriram que suas representações não foram capazes de esconder o terror? Descobriram que eles também eram peças do jogo? Necessários como todos os outros elementos do ecossistema?
Nessas ilusões: é preciso estar amarrado. E para quem não professa isso? Contemplativos? Mecânicos fazedores? Espectadores? Também peças do jogo necessárias ao ecossistema.
Por que se mataram? Conviver com a verdade terrível seria a morte em vida consciente? Morte consciente em vida? Porque o fio da navalha é uma questão de se estar apenas consciente. No momento em que se está, se enxerga o que supostamente era invisível: o terror?
Dormir, dormir para sempre, para sempre sonhar, fabricar sonhos. Se tentou isso em vida, na vida propriamente dita ( propriamente assim nomeada ) e não se conseguiu, quem sabe depois? É sempre um risco, e pode ser pior. Muito pior. Ou não.
Levantar, lavar o rosto, vestir o figurino e entrar em cena representar sabendo que se está fazendo isso. Morte em vida consciente. Histrionismo no cotidiano. Moto-contínuo. Descanso no sono. Mas os sonhos. Os sonhos – nosso inconsciente respira e acaba virando objeto de análise. E o terror acaba se imiscuindo, zombeteiro, sarcástico, maligno. Tornam os sonhos segredos inconfessáveis que nós acabamos debulhando em vão. Sinais que se sobrepõe noite após noite – a quantidade em constante acréscimo nubla e confunde. Isso também deve ser parte do jogo, mas como regra para manter o ecossistema em equilíbrio.
É possível, é possível viver sabendo?
Talvez estejamos – nós – na eminência disso. Por isso essa urgência – buscar rápido refúgio em alguma espécie de representação. Envolver-se no seu manto ilusório. Estar sob ele mesmo que ele também saiba ferir. Ainda assim é a alternativa para o terror lá fora. Que não se deve deixar entrar – e que se entre, deixe a cauda presa pra que a porta nunca possa fechar-se completamente.
09.09.2005
26 de jan. de 2006
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