20 de out. de 2011

Sister, remember your name.

Apaixona, assim, devagar. E fulminante. Com berros silenciosos, afinal, não é de bom-tom. Qual o melhor tom? O quente, da pele negra? Apaixona a causa. O orgulho e o alívio de ser mulher, e ver que me irmana, as tantas outras, que lutam mais e melhor do que eu pela causa. É possível, sim, seguir e viver ignorando. Mas é inevitável, o saber. Alguma partícula, teimosa, que fica incendiando a mente, toda cauterizada já, que tem suas cicatrizes que nunca fecham, seus fantasmas arrastadores de correntes. Eu me irmanei, por vontade própria. Minhas bandeiras estão sempre levantadas. Manchadas de sangue, alguns dias do mês. Desde Eva. Uma vez eu já fui agredida na rua. É. Por que? Por ser menina, e nem mulher. Só por isso. Na tevê, o rosto despedaçado do transexual. Por que? Por causa do sexo. Do seu sexo, que resolveu escolher. Só por isso. E ser mulher, eu sinto, mesmo nascendo-se uma, também é uma escolha. A maior, imagino querendo que seja verdade, é a escolha de: irmanar-se. Programa na tv. Os meninos, lindos, lindos, com gestos tão delicados. A "bicha" feia e pobre também ama. Porque é: irmanar-se. Eis o grande dom da mulher. Dá vida. Se irmana, porque toda a vida vem de uma mulher. Que pode, pelo olhar, onde as lágrimas sobem tão mais de pronto, ver realmente. E o mundo é bem isso, uma conexão infinita de dores. Existir é doer. É à mercê. Fico quieta, cavando, cavando lá no fundo em busca da humildade calada, da coisa maior de todas - a compreensão. Estou querendo ver pelos olhos deles e delas. O cara vai lá e zás - corta o pênis, faz a cirurgia. Bizarro? Circo dos horrores? Tenta ser ele, agora ela. Já é difícil ser o que se é. Dor na alma por essa sede. Que mundo é esse fora da minha cabeça? É o mundo, oras. Tem que vir a aceitação. A gente se sente, a gente se pensa, e durma-se com um barulho desses. Eu dormi. E há duas noites tive sonhos bons. Obrigada. Faziam vários meses. O silêncio, antes de tudo, pra mente alimentar com flores. Eu escolho todos os dias ser o que eu sou, mesmo não querendo. Há, quase que pateticamente, uma voz que clama, uma voz que grita, pairando no ar. Por isso voltei a pensar em Raul Seixas. Em Caio F. Em Martin Luther King. Em Anne Frank, minha xarazinha. Em Renato Russo. Assim, bem cliché mesmo, porque irmanar-se também é tão velho quanto o mundo. Doeu o peito. E depois doeu menos, por pensar nisso - todos na mesma barca. "Me disseram que me sentiria orgulhoso". Tudo tão pequeno. Ridiculamente pequeno, e o rosto estraçalhado, e o olhar infeliz de quem nasceu no corpo errado e apanha por isso. Tem que se esconder. Na sombra às vezes pode-se achar algum refrigério. O sol vem queimando muito. E se é mulher. E querem mandar no seu corpo. E te esconjuram, e te rebaixam, porque não sabem o que é a avalanche de hormônios. Ela deu o filho. Ela tirou o filho. Ela jogou o filho no container de lixo. Ela tomou um joelhaço. Sim, ela/eu tomou um joelhaço, bem na pequena vagina, quando era uma menina de 12 anos. Doeu no rosto da transexual. Me deixa, deixa ela, deixa isso. Leve sua força bruta pra outro lugar. Me deixa sonhar em cor-de-rosa, em lilás, em preto bem vamp, em vermelho bem puta. Que importa? Eu tive dois sonhos bons em dois dias seguidos. Eu vou assim, eu vou me irmanando, me assustando. O menino beijando o outro. A menina beijando a outra. É o beijo. Duas bocas que se encostam. Os órgãos sexuais que se encostam, depois disso, é mera consequência. E eu, como Caio F., quero encostar a cabeça na janela e chorar por mim, por todos. Sister, remember your name. O seu nome, que alguém escolheu, o que é, quem é você? Pode ser quem quiser, eu digo, e pro espelho. Sou mulher. E sou irmã. Das minhas irmãs. Da minha mãe fui filha. Da minha vó fui neta. Vou me irmanando. Da senhora que conta que achou o filho na porta, dentro de uma caixa de sapato, e isso não é novela. Da trans na mesa de operação da Santa Casa, e o médico, tão gentil, obrigada doutor. Do menino gay procurando pretendente na mtv. Das outras mulheres. São putas, interesseiras, balançadoras de bundas, ok. Deixa elas. Queria que fosse diferente, sim, queria. Mas o negócio é viver a minha história. Sem joelhaços na vagina. Sem rosto estraçalhado. Sem tristeza demais, porque a vida. A vida é isso. O mundo é isso. Por dentro. Por fora.