20 de out. de 2009

província's news


São raras, preciosas pedrinhas na beira do rio das palavras.

Risadas descontroladas e a identificação da cauda do escorpião com os chifres do carneiro - instrumentos de defesa que são o melhor ataque.

Acrobatas, as palavras de lá.

Metrificadas, as de cá.

Poder ser um pouco mais o que vai lá dentro, nem que seja pelos fios telefônicos que ligam as mormentes províncias habitadas, calcificadas de tédio e wish lists.

E a saudade, implícita.

Alguns fios de meada, são assim: sempre retomados do último arremate.

17 de out. de 2009

nightmare

Fazia tempo que não acontecia: tentar me mexer no entre-sono e não conseguir. O que era tão nítido e terrível no pesadelo hoje, horas depois, são apenas pálidas imagens sem nexo, e isso me dá pena, porque os sonhos são sempre, matéria prima. de, pelo menos, dar alguma pista, ínfima que seja, do caos que grassa lá dentro, nas profundezas.
Mas retorno ( é que a noite não parece ter acabado ainda, e já são 3 da tarde de sábado, eu gosto de tardes de sábado): altas da madrugada, pesadelo tenebroso, e eu tentando acordar daquilo, sem conseguir mover um músculo. tentava erguer uma mão, um braço, mexer um dedo do pé que fosse - nada. O coma do sono. Assustador. É então que se chora, conseguindo apenas fazer os movimentos mínimos faciais. E é então que se pensa, preciso alcançar o telefone e avisar alguém que eu estou paralisada, que os predadores do sonho ( que eu não tinha certeza total se era ainda e apenas só um pesadelo) estavam cada vez mais perto; mas num clarão de consciência no meio daquele emaranhado eu lembrei que o celular estava na sala e que eu não conseguia me mexer e como eu chegaria lá? E que, merda, não lembrava se tinha realmente chaveado a porta.
E nada, e força, e novas tentativas, e eu não conseguia me mexer.
Devem ter se passado horas ( que talvez sejam equivalentes a minutos nesse fundo de mar que nunca vê a luz que é o sono) mas eis que abro os olhos e consigo me mexer. Devagar, devagar. E, por fim, aquela sensação sem preço de que foi tudo, apenas, um pesadelo.
E até agora, horas depois ( sendo que pude dormir o sono dos justos, bem, dos injustos que seja, sem maiores emoções até as 10 e meia), parece que a noite ainda não acabou, nos meus movimentos lentos, na sensação de irrealidade persistente, até eu chegar aqui e escrever isso, agora, já.
Boa tarde, Stephen King.

6 de out. de 2009

fundos de gaveta

palavras tortas
não as lançamos sobre os telhados
desta, ou de qualquer outra madrugada

deixamos para o silêncio
a tarefa de nos intimidar

e sempre, para sempre sabemos
da inutilidade
da precipitação.

e o que fica para depois
acaba por não ficar:
morre com o dia que nasce
A casa das cinco mulheres.
Todas elas ali são mais jovens do que eu sou agora nesse exato momento, e vinte anos se passaram.
Nem sei se eu as conheço bem, até hoje.
Nem sei se me conhecem. Devem conhecer o que supõe. Que nem sempre é o que se é. Apenas hipóteses. Que se deixa entrever. Que se gostaria de dizer, por trás dos eternos clichês.
Duas tem filhos, três não tem.
Duas foram viúvas, e casaram de novo.
Todas sofreram seu tanto. Umas mais, por coisas de saúde e filhos, outras por perdas, outras pela solidão.
Duas moram sozinhas, três tem maridos.
Quatro tem olhos castanhos, uma tem cor de mel.
As cinco nasceram com cabelos castanhos, antes das tinturas.
Todas sem exceção tem forte tendência para engordar.
Duas eram fumantes, uma ainda fuma. Duas nunca fumaram.
Todas são professoras, gostando ou não da profissão.
Quatro cozinham muito bem, e uma das quatro cozinha melhor que todas.
Pra todas os anos passam.
E eu ainda sou a última.
E eu ainda: ali, naquela foto, eu ainda estou tão ali.

Casa sonho

Casa em Caxias do Sul.

Aleatórias

O frio da primavera: o frio da primeira verdade: o frio na alma.

A consciência plena,ferina, abrangente, por vezes aterradora, logo que se acorda: parodoxo vivo.

Os deuses que se adoram: nas telas, nas fotos, nas páginas, nos arquivos, nas estantes: o vazio do ateísmo rondando.

O pano com que se cobre, o pano que se paga, o pano que veste o manequim, o pano que estampa, o pano que não é para este corpo: o pano vermelho cegou o touro de raiva.

A resposta que não vem, a resposta que não vem a mais de uma década, a resposta depois de pausa longa, a resposta torta, a resposta perdida na posta distante: o cérebro é um ponto de interrogação que desbota rapidamente.

A unha encarnada que descasaca: a raiz do cabelo que aparece: as linhas de expressão sorrateiras, trabalhadoras na calada da madrugada: azulejo limpo, pano de prato bordado, fogão areado: mar vermelho em jatos invasores: feminismo

O silêncio: a solidão: o pó de capuccino: ruído das teclas: casas fechadas: conforto.

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Look at me
I’m your new thing
Taste me
Try me
Put your hands on me

Let me feel empty

Don’t take this from me
I want to be
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But please don’t think
About me
Just let me be
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I’m tired of being profound
I’m tired of being full of moral
I’m tired of being around

Just let me be
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17 de set. de 2009

The book is on the table
Faxineira-fascinante veio, finalmente. Então, aproveitei a onda limpezística e me embrenhei junto, dobrando e guardando roupas, rasgando papéis, enchendo sacolas com o que vinha se acumulando inutilmente. Troquei algumas coisas de lugar e descobri que tenho outras que tinha esquecido a existência. Então que eu peguei material de English da faculdade. Foram 8 cadeiras de English ao longo de 5 anos e meio. Então eu vi, um pouco perplexa e com início de aflição, o quanto o meu english era mais fluente. Embora eu ensine a matéria, mas não se compara a ter aulas semanais ouvidas e faladas, escrever trabalhos ( e até aquela monografia sobre Virginia Woolf e sua Mrs. Dalloway), fazer provas em inglês. Falar inglês, que saudade. Muitas estruturas complexas que vão enferrujando. Mas, para meu consolo, dei uma organizada e deixei mais à mão, pelo menos, pra pegar, quem sabe, de vez em quando, e estudar, all by myself. E claro, pensei se um dia eu poderia usar o que vou exercitar (promessas) de novo far away from here...
The book is on the rack
Tantos livros. Ainda não lidos. Ou lidos um pedaço. Ou lidos em conjunto, e um acaba sobrepujando o outro, que fica pra trás. Depois, na retomada, tem que lembrar dos personagens e tramas. E aqueles que são viciantes. Que precisam ser deixados de lado, pois já se sabe de cor algumas passagens e daí, acaba perdendo o sentido e não é legal isso.
Agora, por exemplo, ou de um tempo pra cá, vejamos: Esaú e Jacó, Machado, um dos tantos ótimos, baratos, fáceis de carregar e variados da coleção de Pockets da L&PM ( bem que eu podia ganhar alguns fazendo propaganda...mas em blog fantasma não rola). Preciso falar baixinho pra ninguém ouvir - um pouco chato. Está bem, bem chato às vezes...Parece uma heresia dizer isso, mas é o que achei, pronto. Diferente, achei, do Dom Casmurro e do Memórias Póstumas, e de tantos outros contos incríveis, talvez porque é narrado pelo Conselheiro Aires, sei lá; mas com um texto bem mais difícil de penetrar, quase que uma porta fechada pro leitor. É essa a sensação - de algo importante acontecendo ( não a história em si, mas a maneira que é contada) e que só se pode ver através da janela, à distância, e não se pode entrar. Continuando: também A Abadia de Northanger, da Jane Austen. Eu tenho verdadeiro amor pelos livros dela, essa é a palavra - amor. Adoro todas as moças protagonistas, em especial Eleanor Dashwood, de Razão e Sensibilidade, e a minha xará Anne, de Persuasão. Pois em a Abadia, a coisa parece meio bagunçada ( com todo o respeito, Miss Austen), os monólogos são quilométricos, e a protagonista Catherine é, talvez, a que tem menos profundidade de todas as heroínas. Mas, e daí? É bom de qualquer maneira. Me falta comprar Emma, que é ótimo, e Orgulho e Preconceito - cuja melhor adaptação pras telas é de uma série da BBC, do século passado (1996) com o Colin Firth fazendo um perfeito Mr.Darcy.
Há também Os Cães Ladram, de Truman Capote. Sim, vi o filme sobre ele, e tudo. O livro contém uma série de textos, alguns curtos, outros bem longos, sobre viagens, personalidades ( Marlon Brando, Marylin Monroe)e impressões. Estou na parte em que ele relata a viagem com uma imensa companhia teatral americana para a União Soviética em 1955, auge da Guerra Fria. Gosto muito do estilo dele de escrever, e a maneira sutil, cheia de entrelinhas, de descrever as pessoas e situações.
Mas, mesmo com essas leituras em suspenso, aparecem para mim nostalgias como David Copperfield (que li completo aos 12 anos, tudo como um filme na minha cabeça juvenil); outros vários Paul Austers que ainda não li e me fazem muita falta; muitas histórias de Edgar Allan Poe que tive acesso na biblioteca da Faculdade numa edição sedutora e completa em papel bíblia que também me faz muita falta.
The book is on my mind
Mas, se a Fada Madrinha me concedesse um pedido livrístico, só um, eu seria bem coerente com ela: pediria de volta aquelas coleções de contos de fada que eu tinha quando criança, que devem estar nas estantes do Reino do Beleléu. Os desenhos eram assombrosos, tétricos como as histórias, e eu ficava horas e horas com eles nas mãos, antes mesmo de aprender a ler. Depois que eu aprendi, eram dias.

Milk

Assisti ( com IMENSO atraso, eu sei, shame on me) ontem ao filme "Milk" ( dessa vez, o subtítulo que os tradutores geralmente colocam com enorme equívoco, foi bacana; "A Voz da Igualdade"). Até agora ressoam e vibram as imagens e os sentimentos. Em primeiro lugar, o filme é de Sean Penn. Quando ele ganhou o Oscar, pensei que deveria ter sido de Mickey Rourke. Todos diziam que o Mickey na verdade estava representando a vida dele mesmo, que a trajetória de "O Lutador" era semelhante a dele, portanto, eis o motivo do desempenho estupendo do cara. Discordo de tudo isso. O que ele fez lá foi um negócio tão visceral, tão carne-sangue-nervos-lágrimas, que nada mais importa - história de vida ou não. E, no fim das contas, uma das minhas fundas crenças, azar é do goleiro por isso, que não há como separar a vida do artista/ator/escritor/etc, do criador, enfim, da obra. Como é que se vai dar vida a alguma coisa se não se põe a própria vida ali? Mas isso é assunto pra outro dia. Preciso voltar à Sean Penn, e a incrível interpretação dele como Harvey Milk - com a ajuda dele, e de um elenco de coadjuvantes precioso, o filme é de uma verdade, de uma densidade delicada e dolorida ao mesmo tempo. Mais do que representar uma figura histórica, de extrema importância não só para os gays, mas para os direitos humanos, para o ser humano, enfim, que necessariamente comporta toda e qualquer opção sexual, Sean Penn vai além ( com a ajuda da direção, do roteiro e da caracterização de época, tudo impecável). Vai justamente ao encontro disso: do humano. O que faz o filme ficar muito além dessa coisa boba de "filme de gays/para gays". Obviamente, para simpatizantes, como eu, o pacote é maior, e pega com muito mais força. E também dá alento, ressuscita um fiozinho de esperança, pensar que algumas pessoas, como Harvey Milk, vem pra cá com esse destino, com uma predestinação, devolvendo algum sentido à coisas inexplicáveis.
De Sean Penn também se tem o "Na Natureza Selvagem", como diretor; "Uma Lição de Vida", também indicado ao Oscar de ator ( os dois tem trilhas estupendas, o primeiro com canções do Eddie Veder, e o segundo, com versões de um tudo dos Beatles) e o mais antigo, "21 Gramas", que também não fica atrás. E ele fica na galeria daqueles atores de filmes que se pode ver sem medo - vão ser, no mínimo, bons, de roteiro bacanas e sempre cercado de coadjuvantes abrilhantando o baile. Junto com ele, no quesito "veja sem medo", ficam Johnny Depp, Edward Norton, Robert De Niro, Javier Barden, todos, por incrível coincidência, bem feios e sem graça, não é mesmo?

8 de set. de 2009

Domingo do parque

Levantar e sair dançando quando toca aquela música.
Rir solitariamente, e alto.
Bater palmas freneticamente pensando em algo futuramente bom.
Perguntar "por que?"
Ficar mesmerizado diante dos filmes-desenhos (dica quente: Coraline).
Sujar a roupa ao comer, bem no lugar que vai o babeiro.
(Quase) chorar ao lembrar que os livros de contos de fadas se perderam para sempre.
Ter bonecas, mesmo que não brinque (muito) com elas.
Fazer festinhas e tratar o cachorro como filho.
Ir na sessão de brinquedos da loja ou supermercado dar um olhada.
Sentir vontade de ver de novo a coleção de papéis de carta, figurinhas, cartinhas, tazos, o escambal.
Colecionar alguma coisa.
Reparar em coisas coloridas, curiosas, e que envolvam bichos ou figuras estranhas.
Ter medo do louco do bairro.
Mostrar para amiguinhos e amiguinhas novas aquisições.
Usar lápis de cor. E canetinhas.
Jogar algum jogo.
Jogar videogame.
Andar no cordão da calçada.
Achar que aquele(a) colega/vizinho(a) chato(a) é um(a) exibido(a) de marca maior.
Chamar as pessoas de "feias" "bobas" "chatas"de vez em quando.
Chutar uma bola.
Ser maluco(a) por doces.
Salivar pelo refri.
Lotar o pratinho de salgadinhos e docinhos nas festinhas.
Esperar ansiosamente pra cortarem logo o bolo nas festinhas.
Ter vontade de pegar pra si o presente que levou pro aniversariante.
Usar mochila.
Achar o cara do filme de vampiro lindo de morrer.
Ficar ouvindo os adultos falarem e se sentir frustrado(a) porque não consegue entender do que, droga, eles estão falando.
Brincar com outras crianças.
Ter estojo com lápis, canetas, borracha, apontador.
Querer ter uma caixa de faber castell aquarelável.
Se sentir sozinho(a) no mundo as vezes.
Sentir saudade dos pais.
Ter medo de escuro.
Querer ser alguém importante/famoso/de profissão maluca quando crescer.

Se você, como eu, se encaixa em muitos, ou pelo menos nuns 2, dos itens acima, mês que vem tem o dia da criança.
Parabéns pra gente.
Keep alive, always.

25 de jul. de 2009

Os dois potes são bonitos - brancos com a tampa verde-claro. Fazem um barulhinho bom, Marisa Monte (trilha tipo-nada-a-ver). Custaram, os irmãos quase gêmeos, e se fossem gêmeos, quase univitelinos, 35 pilas, quantia módica até, na loja de produtos naturais, atendida por uma simpática baiana assustada com o frio do Rio Grande, tchê. Módica quantia se operarem milagres, afinal, dorme-se com a inimiga, é arriscado. Dorme-se, acorda-se, vive-se com a inimiga. Morando bem lá dentro, escondida e confortável feito feto no útero do crânio dolorido e das "mioleiras tricotadas", pra citar Nisemblat. A ciência natural vai ajudar.
O gato passeia pelo muro. Batizei-o de Edgar, singela homenagem a Poe. Talvez eu fosse uma bruxa, se conto de fada a vida fosse. Vivendo assim, no meio das árvores, da pilha de folhas secas que se acumulam ao redor, escondida ao fundo, quem não sabe daqui, não sabe que aqui habito. E quem sabe tem o direito de fugir. Eu gostaria, por vezes, mas faltam forças, ou eu não as enxergo.
* * *

“A única forma de suportar a existência é aturdir-se na literatura como em uma orgia perpétua.”
Gustave Flaubert
Li mais um Paul Auster. Li de uma sentada ( e de algumas deitadas, pra ser mais precisa). Virei sócia da biblioteca do Sesc aqui de minha dileta cidade. O momento encontro com as estantes de lá foi significativo: senti uma espécie de taquicardia, um deslumbramento, um quase sem-fôlego. As cores, as texturas, os livros alinhados na estante, que eu tocava, olhava, passeava pelo meio. Há quanto tempo eu não entrava numa biblioteca de verdade? Lembrei de outros momentos assim, na faculdade, mas lá a coisa era quase que diária, então, a sensação foi ficando esmaecida. Biblioteca pra mim é mitologia pura, ainda mais nesse momento Caio F. que ando, quando o fósforo que não acende é o fogo de Prometeu que não vinga, ó deuses. Engraçado foi a moça que entrou quase depois de mim: ela dizia que ia alugar livros, alugar. Mas a gente não paga por eles, senhorita ( eu vestia um vestido de época, em pensamento, então tinha que ser coerente na linguagem imaginária). A gente os pega na mão, dá pra moça simpática no balcão, ela registra e a gente leva pra casa. Assim é uma biblioteca: um empréstimo, uma taquicardia, um deslumbramento. Ela não consegui achar os do Sidney Sheldon, uma vez que o Crepúsculo, que ela desolada descobriu que tinha fila de espera, não estava lá. Indiquei onde estava, orgulhosa. Lembrando que havia lido vários do cara aos 11, 12, 13 anos de idade. Não, isso não é nenhuma nota de arrogância ou desdém - pra quem tem vício, até o ruim é bom. É como com os filmes - vê-se de tudo, o resto fica por conta da seleção natural.
E Paul Auster é um baita dum escritor. Ponto.
* * *

“Parecia-me que a literatura agregava quartos ao mundo, assim como se agregam quartos a uma casa. E esses quartos eram infinitos e atraentes. Creio que os bons romances são como casas em que uma pessoa gosta de morar.”
Adolfo Bioy Casares
Ontem, sol - fui andar um tanto. Numa cidade "pequena", é fácil passar por lugares que guardam lembranças remotas, é só virar umas esquinas, subir e descer lombas, mudar alguns metros do trajeto. A escola da adolescência, a escola de freiras, construção antiga e bela, ainda está lá, ao alcance de alguns passos. A sala de aula que passei o último ano, com seus janelões incríveis onde a gente sentava quando ninguém iria reclamar, também estava. Nada de nostalgia da pesada, não: algo leve, quase que um vento memorial soprando, e dizendo quase nada, que é muito, no fundo: o tempo. Que passa. Por mais que não pareça. E todas as perguntas decorrentes disso, que é tão simples, são tão complexas e irrespondíveis. Que imenso paradoxo, a gente nunca entender o que decorre do que é estabelecido. Então fico andando, entre orgulhosa e preocupada de ser tão adolescente ainda, debaixo do sol, tentando fingir que não preciso passar no banco e nem pensar que era hora do almoço.

“ Ler bem é um dos maiores prazeres que a solidão pode proporcionar, porque, pelo menos segundo minha experiência, é o mais saudável do ponto de vista espiritual. Faz com que a pessoa se relacione com a alteridade, quer a própria, quer a dos amigos ou a de quem puder chegar a sê-lo. A invenção literária é alteridade e, por isso, alivia a solidão.”
Harold Bloom

* * *

“ Nada é real se não o escrevo.”
Virginia Woolf

9 de jul. de 2009

Adjutórios do momento:

Black to Black, Amy Winehouse
No surprises, Radiohead
Uma foto de Edward Norton
Literatura policial e fantástica, vários autores
Som e fúria, minissérie da Grobo
Cobertor de lã apelidado de Urso
Cigarretes
Poder dormir nas manhãs de folga
Torradas, by George Forman

9 de jun. de 2009

The awakening

Há muito, muito tempo atrás, numa galáxia distante aqui, nesse mesmo universo adjutório, eu falei da curva dos 30. Pois bem, já se passaram dois anos dessa passagem. E eles, os anos, passam assim, num abrir e fechar de olhos. Ontem, por exemplo, quando eu fui dormir, de pijama novo, eu tinha uns 16.
E eu era eterna.
Acordei com 16 a mais e lá, em cima do armário do banheiro, vi que tinha um pote de creme anti-rugas. E, me aproximando mais do espelho, vi que realmente, pelas linhas de expressão que incrivelmente surgiram no espaço de 7 horas dormidas, estava precisando mesmo do tal do potinho. E, depois, me dei conta de que, ao invés de ir para a aula, sentar no fundo da sala, trocar bilhetinhos com as colegas e escrever letras de música da Legião Urbana nas últimas folhas do caderno, eu tinha que me vestir, pegar um ônibus cedo e ir para a frente da sala de aula, dar a aula, e não assistir, porque eu agora era a professora. Então eu fui abrir a geladeira e vi que só tinha uma caixinha de leite, e no fim, e que se eu quisesse beber mais leite do que aquilo, eu, e só eu, teria que comprar, porque as caixas de leite dentro da geladeira não eram fontes perpetuamente renováveis como quando eu tinha ido dormir com 16 anos.
Não senti nostalgia nem pânico por aquela situação tão incomum, esse negócio de acordar com o dobro da idade. Senti primeiro uma solidão imensa, porque fui percebendo que só eu habitava aquela casa ( e que não era mais a casa dos meus pais). Depois, aquela coisa literária chamada de "lenta compreensão" foi invadindo. Por que assim, aos poucos, como que clicando em vários arquivos em sequencia, veio também vários conhecimentos, visões, lembranças, experiências que esse acréscimo de 16 anos trazia embutido. rapidamente, fiz o fatídico balanço ( há coisas fora de comando muito cedo pela manhã). Quis voltar correndo pra lá, 16 anos antes. Mas queria levar junto o que aprendi, incluindo, principalmente, o que não foi bom. Ou o pouco. Ou o errado ( que foi tanto). Mas decidi ficar, e pensar, assim, tentando tornar permanente, tentando tornar um trunfo particular, que eu poderia começar tudo, de novo, aos 16 nos 32. Com a mesma fome. A mesma curiosidade. A mesma fé. A mesma esperança. A mesma vontade de aprender. De novo e de novo e de novo.
E sem dispensar a companhia, claro, do anti-rugas, bom conselheiro da pele tenra dos 16.

12 de jan. de 2009

Ficções ( em homenagem à Borges)

Creio que foi Foucauld ( cito de segunda mão, não consegui ainda passar das primeiras páginas) que falou a respeito de "acreditar no discurso". Isso me leva à idéia de aceitação do pacto ficcional. Aquela coisa de comprarmos a idéia do que lemos, compactuar com o autor, aceitar o que se lê como real.Mesmo que se saiba que é ficção, que não é real ( e mesmo o relato de experiências verídicas, quando escritas, são sempre uma representação), compactuamos. Sentimos, sofremos, rimos, especialmente com aqueles escritores bruxos ( do Cosme Velho ou não). As personagens se tornam quase que pessoas reais e palpáveis.
Mas falo de literatura. E ponto.
Nova linha, parágrafo: a vida não é literatura, aliás, Pessoa disse, o sol doura sem ela. Eu não vivo sem, mas não espero que outros sejam como eu. Gostaria até, mas não espero mais. Mas: a vida é isso aí, do cotidiano, de abrir os olhos, sair pra rua, coexistir - pelo menos em teoria.Então chego onde eu queria realmente chegar e não conseguiria sem uma básica introdução: é possível aceitar o pacto ficcional, acreditar no discurso da vida chão-chão?Antes de ser possível ou não, deve-se fazer isso? É assim mesmo que tem que ser?
Devo estar sendo naive ( french words em tua homenagem, Nisemblat), mas, eu ainda não sei jogar o jogo. Esse grande teatrão que virou a vida, desde o sorriso falso, a aquiescência forçada, as amabilidades fúteis ( até então, digamos, estaríamos no terreno "soft", talvez) ao engolir sapos que ficam trancados na garganta.Porque o bizarro, o irreal, o absurdo, o insuportável, tudo vai virando discurso que se aceita, pacto ficcional que saiu da literatura pra vida-vida mesmo. Aquela de ir trabalhar, pegar ônibus, atravessar avenidas, frequentar o comércio. Digo: não é possível que as pessoas não percebam que tudo é, cada vez mais, uma representação e a gente é, na maioria, aqueles extras que passam ao longe na cena e que nunca levam o nome nos créditos. Que tudo é uma grande manipulação.
Cada um escuta, acredito, o eco da verdade em uma altura diferente. Eu, às vezes, quase me ensurdeço - mas fico pensando se eu mesma não estou fabricando esse efeito sonoro pra me candidatar ao Oscar desse categoria imaginária pra esse filme extenso e incompreensível do qual eu faço parte. Da qual a comida, a cor em voga, a marca, a bebida mais nova, o arremedo de moda que respinga nos balaios e liquidações das lojas de departamentos, fazem parte.Tudo vira camada sobre camada de algo genuíno, primevo, que vai desbotando, vai esmaecendo.
É, talvez, uma tentativa de buscar o meu primitivo. Bonito dizer que a arte, a literatura, salva. Salva porque ilude. E ilusão é proteção. A arte imita a vida, lembra? Mas quando a vida começa a imitar a arte, e o surrealismo, que devia estar dentro da moldura daliniana, por exemplo, começa a invadir e transformar a vida-vida nessa representação esquizofrênica, nesse frenesi de mentiras e discursos que de tão falsos são críveis, eu quero que a arte seja mais arte e menos vida.
A vida, esse negócio genuíno e primevo.
E escrever, esse é o meu genuíno e primevo. Mesmo que seja um tatear na neblina, ainda é o espaço em que o pacto ficcional está em seu lugar à parte: no seu verdadeiro lugar.

10 de jan. de 2009

Filmes Favoritos

Caio Fernando Abreu em...
O Jardineiro Fiel


John Steinbeck, Philip Roth e Paul Auster em...
Era uma vez na América


Simone de Beauvoir, Gustave Flaubert, Victor Hugo em:
O Último Tango em Paris


William Shakespeare em:
O Poderoso Chefão


Fernando Pessoa em:
As Sete Caras do Dr.Lao


Machado de Assis em...
O Mágico de Oz


Nelson Rodrigues em...
Segredos e Mentiras


Edgar Allan Poe, Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos em...
Festim Diabólico


Clarice Lispector em...
My Fair Lady

9 de jan. de 2009

Ao som de la viguela

para o exato momento que está acontecendo:

é o sangue inanimado, insuspeitado, que volta a pulsar
alguma vida insopitável que esse vento, sonoro, veio a despertar
a vontade se ergue do leito fictício de morte
disposta a toda e qualquer cartada da sorte

dia de ventos, dia dos mortos, dia de ressuscitar
segurar firme e impiedosamente para de novo este nó atar
que seja tardio, não importa, afinal, este enlace
urge pular no primeiro trem que por essa estação passe

é o vento, com esse murmúrio secular, imemorial
que insiste em por a correr pelas veias essa vontade quase bestial

o apelo grita aos ouvidos que abandonaram a voluntária surdez
para emitir o último aviso, chegada a hora, vinda de uma vez

vento nas veias, sangue que grita pelas esquinas do corpo
sopro renovado naquilo que se julgava para sempre morto

la sangre, me ponga a cantar, tu canción de despiertar
el viento, me ponga a viajar, en tu canción de sangrar