Há muito, muito tempo atrás, numa galáxia distante aqui, nesse mesmo universo adjutório, eu falei da curva dos 30. Pois bem, já se passaram dois anos dessa passagem. E eles, os anos, passam assim, num abrir e fechar de olhos. Ontem, por exemplo, quando eu fui dormir, de pijama novo, eu tinha uns 16.
E eu era eterna.
Acordei com 16 a mais e lá, em cima do armário do banheiro, vi que tinha um pote de creme anti-rugas. E, me aproximando mais do espelho, vi que realmente, pelas linhas de expressão que incrivelmente surgiram no espaço de 7 horas dormidas, estava precisando mesmo do tal do potinho. E, depois, me dei conta de que, ao invés de ir para a aula, sentar no fundo da sala, trocar bilhetinhos com as colegas e escrever letras de música da Legião Urbana nas últimas folhas do caderno, eu tinha que me vestir, pegar um ônibus cedo e ir para a frente da sala de aula, dar a aula, e não assistir, porque eu agora era a professora. Então eu fui abrir a geladeira e vi que só tinha uma caixinha de leite, e no fim, e que se eu quisesse beber mais leite do que aquilo, eu, e só eu, teria que comprar, porque as caixas de leite dentro da geladeira não eram fontes perpetuamente renováveis como quando eu tinha ido dormir com 16 anos.
Não senti nostalgia nem pânico por aquela situação tão incomum, esse negócio de acordar com o dobro da idade. Senti primeiro uma solidão imensa, porque fui percebendo que só eu habitava aquela casa ( e que não era mais a casa dos meus pais). Depois, aquela coisa literária chamada de "lenta compreensão" foi invadindo. Por que assim, aos poucos, como que clicando em vários arquivos em sequencia, veio também vários conhecimentos, visões, lembranças, experiências que esse acréscimo de 16 anos trazia embutido. rapidamente, fiz o fatídico balanço ( há coisas fora de comando muito cedo pela manhã). Quis voltar correndo pra lá, 16 anos antes. Mas queria levar junto o que aprendi, incluindo, principalmente, o que não foi bom. Ou o pouco. Ou o errado ( que foi tanto). Mas decidi ficar, e pensar, assim, tentando tornar permanente, tentando tornar um trunfo particular, que eu poderia começar tudo, de novo, aos 16 nos 32. Com a mesma fome. A mesma curiosidade. A mesma fé. A mesma esperança. A mesma vontade de aprender. De novo e de novo e de novo.
E sem dispensar a companhia, claro, do anti-rugas, bom conselheiro da pele tenra dos 16.
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