14 de dez. de 2011

watch witch!

As verdadeiras bruxas sabem da sombra e do preço que se paga por viver sob elas
A força da natureza é sombria como a tempestade e
e essa força sombria, de alguma maneira, conversa com o seu lado escuro da lua, pink floyd, relógios derretendo, corpos derretendo nas chamas medievais
As bruxas de verdade não arrastam gnomos e duendes, pateticamente, pela corrente, na floresta, como animais de estimação. Essas são fadas disfarçadas... Quando cai a noite, A Grande Noite da Paranóia, sobre floresta encantada, se escondem, agarram-se a sua auto-ajuda de orelha de um best-seller qualquer...
A outra, a de verdade, acossada pelas vozes que não se calam, é que é engolida pela escuridão. Flanco aberto, espinho no peito, carne viva(o fogo), erva daninha em combustão, vai e mexe, mais um pouco, mais a fundo, temerária demais, roçando a beira do abismo.
Fiquem com suas filosofias de power point e, quando cair a noite, recolham-se às suas alcovas perfumadas - as outras vão beber do álcool da madrugada, atormentadas ao ponto de, em algum momento em que a noite de carnaval acaba e chega a quarta-feira de cinzas (cinzas da própria fogueira onde queimou a noite inteira), desejarem, insanamente, serem assim também...

16 de nov. de 2011

Acontecer

Casulos quentes, confortáveis - dentro dele você penteia o cabelo, veste a roupa e vem para o mundo lá fora, até onde a corda invisível foi programada para ir. Os dias programados na agenda, de papel e mental. As tarefas enfileiradas como xícaras ( de líquidos quentes, confortáveis ), velhas conhecidas, amáveis e silenciosas. A rotina. O fio invisível também ordena a mente. Tudo ao redor é conhecido, e até mesmo o trajeto novo é familiar - se vai para o mesmo lugar. É fácil ocupar o varal, esvaziar a pia, aquecer a água, aquecer os pés.

Mas acontece. E sempre algo acontece. Só que de dentro do casulo é meio embaçada a visão, é sempre atrás do vidro, dos fios entrelaçados. Acontece ali dentro, frestras, por onde se escapa. O pé fica lá dentro, mas o corpo sai. A mente fica, a mente vai. O outro pé tropeça, traz tudo pra fora. E você fala com você mesmo - sabia que tanto assim, aqui fora, acontecia? O tempo todo, o tempo inteiro. Quem parou foi você. Quem se cobriu, foi você... Mesmo sozinho, mesmo confuso, mesmo perdido, o que acontece, e sem parar, vai acontecer lá fora. Talvez seja hora de ver isso sem nada que obstrua a visão. Sem vidros, sem fios. Vai fazer frio, vai chover na cabeça, vai gelar a alma. Mas vai ter a música do mundo tocando, tocando sem parar. E seus instrumentos. E os que executam esses sons.

Dá medo. Dá covardia. E por que não? Pensa. Os fantasmas vão continuar a arrastar as correntes aí dentro, os macacos vão pular com mais gana dentro do sotão, então, por que não? O casulo vai estar vazio quando você voltar, você nem vai reconhecer o lugar. E por que não? Algumas coisas, depois que acontecem, não podem ser ignoradas. Há um abrir de olhos. Há uma mudança na posição do prisma, da lente, da luz, do foco. E isso traz coisas novas a ver, que, veja só, estão sempre ali, passando, como a água do rio. Pode-se mergulhar, olha bem, pode se secar à margem, mergulhar de novo, pescar, acampar na beira, só caminhar. Tudo temporário. Tudo efêmero. Tudo acontecendo.

Porque estar vivo, se sentir vivo, é estar acontecendo também, de dentro, pra fora, é um acontecer junto, é simplesmente pensar antes no "sim" do que no "não", mesmo optando pelo não, o sim vai se tornando uma opção, cativa...

Acordar, acontecer... Os tempos jogam estes verbos na porta, no colo, na mente. Tem que ser.

Um pouco de Céu: faz bem

20 de out. de 2011

Sister, remember your name.

Apaixona, assim, devagar. E fulminante. Com berros silenciosos, afinal, não é de bom-tom. Qual o melhor tom? O quente, da pele negra? Apaixona a causa. O orgulho e o alívio de ser mulher, e ver que me irmana, as tantas outras, que lutam mais e melhor do que eu pela causa. É possível, sim, seguir e viver ignorando. Mas é inevitável, o saber. Alguma partícula, teimosa, que fica incendiando a mente, toda cauterizada já, que tem suas cicatrizes que nunca fecham, seus fantasmas arrastadores de correntes. Eu me irmanei, por vontade própria. Minhas bandeiras estão sempre levantadas. Manchadas de sangue, alguns dias do mês. Desde Eva. Uma vez eu já fui agredida na rua. É. Por que? Por ser menina, e nem mulher. Só por isso. Na tevê, o rosto despedaçado do transexual. Por que? Por causa do sexo. Do seu sexo, que resolveu escolher. Só por isso. E ser mulher, eu sinto, mesmo nascendo-se uma, também é uma escolha. A maior, imagino querendo que seja verdade, é a escolha de: irmanar-se. Programa na tv. Os meninos, lindos, lindos, com gestos tão delicados. A "bicha" feia e pobre também ama. Porque é: irmanar-se. Eis o grande dom da mulher. Dá vida. Se irmana, porque toda a vida vem de uma mulher. Que pode, pelo olhar, onde as lágrimas sobem tão mais de pronto, ver realmente. E o mundo é bem isso, uma conexão infinita de dores. Existir é doer. É à mercê. Fico quieta, cavando, cavando lá no fundo em busca da humildade calada, da coisa maior de todas - a compreensão. Estou querendo ver pelos olhos deles e delas. O cara vai lá e zás - corta o pênis, faz a cirurgia. Bizarro? Circo dos horrores? Tenta ser ele, agora ela. Já é difícil ser o que se é. Dor na alma por essa sede. Que mundo é esse fora da minha cabeça? É o mundo, oras. Tem que vir a aceitação. A gente se sente, a gente se pensa, e durma-se com um barulho desses. Eu dormi. E há duas noites tive sonhos bons. Obrigada. Faziam vários meses. O silêncio, antes de tudo, pra mente alimentar com flores. Eu escolho todos os dias ser o que eu sou, mesmo não querendo. Há, quase que pateticamente, uma voz que clama, uma voz que grita, pairando no ar. Por isso voltei a pensar em Raul Seixas. Em Caio F. Em Martin Luther King. Em Anne Frank, minha xarazinha. Em Renato Russo. Assim, bem cliché mesmo, porque irmanar-se também é tão velho quanto o mundo. Doeu o peito. E depois doeu menos, por pensar nisso - todos na mesma barca. "Me disseram que me sentiria orgulhoso". Tudo tão pequeno. Ridiculamente pequeno, e o rosto estraçalhado, e o olhar infeliz de quem nasceu no corpo errado e apanha por isso. Tem que se esconder. Na sombra às vezes pode-se achar algum refrigério. O sol vem queimando muito. E se é mulher. E querem mandar no seu corpo. E te esconjuram, e te rebaixam, porque não sabem o que é a avalanche de hormônios. Ela deu o filho. Ela tirou o filho. Ela jogou o filho no container de lixo. Ela tomou um joelhaço. Sim, ela/eu tomou um joelhaço, bem na pequena vagina, quando era uma menina de 12 anos. Doeu no rosto da transexual. Me deixa, deixa ela, deixa isso. Leve sua força bruta pra outro lugar. Me deixa sonhar em cor-de-rosa, em lilás, em preto bem vamp, em vermelho bem puta. Que importa? Eu tive dois sonhos bons em dois dias seguidos. Eu vou assim, eu vou me irmanando, me assustando. O menino beijando o outro. A menina beijando a outra. É o beijo. Duas bocas que se encostam. Os órgãos sexuais que se encostam, depois disso, é mera consequência. E eu, como Caio F., quero encostar a cabeça na janela e chorar por mim, por todos. Sister, remember your name. O seu nome, que alguém escolheu, o que é, quem é você? Pode ser quem quiser, eu digo, e pro espelho. Sou mulher. E sou irmã. Das minhas irmãs. Da minha mãe fui filha. Da minha vó fui neta. Vou me irmanando. Da senhora que conta que achou o filho na porta, dentro de uma caixa de sapato, e isso não é novela. Da trans na mesa de operação da Santa Casa, e o médico, tão gentil, obrigada doutor. Do menino gay procurando pretendente na mtv. Das outras mulheres. São putas, interesseiras, balançadoras de bundas, ok. Deixa elas. Queria que fosse diferente, sim, queria. Mas o negócio é viver a minha história. Sem joelhaços na vagina. Sem rosto estraçalhado. Sem tristeza demais, porque a vida. A vida é isso. O mundo é isso. Por dentro. Por fora.

10 de ago. de 2011

Thanks,Noah

Os animais são tão incríveis. Até um peixe-beta responde a um carinho através do vidro do aquário. Eu, que nunca fui chegada à gatos, gradualmente vou sendo conquistada. E vou ficando ridícula na presença de um bicho ( não de todos, claro), começo a falar uma outra língua, só minha, que lembra levemente o chinês. Vontades loucas de apertar, até bruxismo ( acordada) me dá. Então me pego vendo as imagens, cenas, de animais de todos os tipos na tv, nos filmes, coração banhado de ternura. Até os feios, os esquisitos, tem a sua escondida graça. Uma joaninha resolveu visitar meu banheiro, o inseto mais bonito do mundo. Um cadáver de lagartixa ( já encontrei dentro de livros, inclusive) me dá um baque de tristeza. E as lontras, as lontras do zoológico, Deus meu? Elas ficam lá, naqueles laguinhos artificiais, pulando e mergulhando sem parar, numa coreografia hipnótica; parecem sorrir pra mim e dizer, ó, como é bom brincar e não pensar em mais nada. Os elefantes e girafas, magnânimos, ternos e zens em sua altura e peso, me enchem de puríssimo amor.

E então ouço coisas como "as pessoas precisam se humanizar". E chamar alguém de "animal" é considerado ofensivo... Olho aquela filosofia bandeada pro Oriente dos animais, eles apenas existem e vivem de acordo com sua espécie. São, apenas. Nós também somos. Mas, usamos nossas faculdades pensantes, o que nos difere dos bichos, e que nós dão aquilo que chamamos de "poder de escolha", pra escolher mal. Eles o fazem por instinto. Nós, aculturados, temos, cientes ou não, o livre arbítrio. É da natureza da cobra expelir veneno.
A gente bem que poderia segurar, de vez em quando, o nosso. Ou expelir, bem na sua, de canto, num banheiro escuro, com ninguém por perto - no máximo, uma parceria pra segurar a nossa cabeça.

14 de jun. de 2011

é melhor

é melhor ser alegre que ser triste

é melhor ser extrovertido que reservado
é melhor ser falado que ser pensado

é melhor ser essencial que ser preciso
é melhor ser crente que ser indeciso

é melhor ser remediado que horroroso
é melhor ser simpático que desdenhoso


é melhor ser patrão que ser servente
é melhor ser autosuficiente que ser carente


é melhor ser frito que ser assado
é melhor ser bem sucedido que fracassado

é melhor ser fodão que ser encolhido
é melhor ser agressor que agredido

é melhor ser rima pobre que ser rima rica
é melhor ser qualquer rima que inspiração nanica

é melhor ser lembrado que ser esquecido
é melhor ser livre que ser entupido

é melhor ser mocinho que ser vilão
é melhor ser certo que ser contramão

é melhor ser
ser
é muito melhor
apenas ser

mas acontece que...

o resto o vinícius sabe.

(publicado antes de pensar 2x)

2 de mai. de 2011

Vagando na internet, com a tv ligada, fico sabendo, em primeira mão, que o bin Laden foi morto. Logo em seguida, 0:35 da madrugada de segunda, Obama faz seu pronunciamento ao vivo, que eu assisto pela Record News. Vários minutos depois, talvez uns quarenta, ou mais, a rede Globo transmite o mesmo pronunciamento, com aquelas letrinhas safadas de "ao vivo" no cantinho da tela... como se eles tivessem a supremacia de serem os que divulgam tudo primeiro. E a Patricia Poeta com cara de sono, o brinco um pouco desajeitado, acho que foram buscá-la na saída do Projac, será?
Bobagens à parte, corta para a frente da Casa Branca, multidão crescente, comemorando muito. Comemorando, vibrando, com sanguenozóio, a morte. A morte de um ser humano. Por mais desprezível, horrendo e tudo o mais que ele seja, é um ser humano. Merecia morrer, quem responde a isso? Quem sou eu para dissertar sobre o terrorismo, política internacional, direitos humanos, atentados ao World Trade? Ninguém, lógico. De tudo, me ficou aquela estupidificação dos que ignoram as verdades alheias, ou as verdades incontestáveis. Apenas, saliento, apenas me quedei pensando que a humanidade é assim - sejam lá quais os motivos forem, justos ou não, não é isso que está em questão neste texto, comemora-se a morte de alguém. Talvez se alguém querido a mim tivesse morrido debaixo daqueles escombros, lá em NY, eu estivesse também vibrando, de acordo com a regra básica de que pimenta nos outros é refresco, em mim arde pra caramba. É fácil pensar em direitos humanos, em penas justas, em ser contra a pena de morte, quando felizmente nada de horrível aconteceu aos nossos entes queridos, seria isso? Mas também, através da empatia, podemos nos solidarizar com o sofrimento de pessoas distantes de nosso círculo, e sentir, de empréstimo, a gana da vingança, da justiça. Coisa recorrente, apavorantemente recorrente hoje em dia, todo dia, todas as horas - uma espécie de impotência que a injustiça causa, um aniquilamento, um soterramento de esperança contínuo, implacável.
O que suponho, e com certeza não estou descobrindo a pólvora ou a cura de uma doença fatal, é que o mal, ah, o mal é inerente. Difícil de aceitar,por vezes, difícil de acreditar. É aquela velha e batida metáfora da ladeira, fazer o mal é só descer, vai que é um doce, fácil e escorreito. E o negócio é tão variado, é tão sortido,de tantas formas se pode fazer o mal, tantas formas ele assume. E eu me pergunto, se vibrar, se comemorar a morte de um ser humano, é deixar o mal vibrar junto? Como se paga um mal feito? "Aqui se faz aqui se paga" - não se aplicaria nesse caso. A vida é o bem mais precioso, e o fim dela paga todo o mal feito? Apaga-se o ser.
Num país como esse, como o nosso (que país é esse? mistério insolúvel), onde as pessoas simplesmente se safam de penas que já são por si, leves, o jeito seria matá-las, uma vez que dez, quando muito, anos de encarceramento seriam pouco pra punir o matador, o estuprador, o destruidor, o ceifador? O expurgo dos podres, dos contaminados, dos que cultivam, consciente ou inconscientemente, o mato do mal e deixam ele transbordar, venenoso, para o outro. Uma das piores coisas, talvez, seja a maldade imposta aos que não tem, de jeito nenhum, como se defender. Meu sangue nos olhos particular, minha gana homicida, minha vontade de amputações bárbaras, de torturas medievais? Estupradores, em especial de crianças. Não sei se é feminismo, se é equívoco, seja lá o que for - o abuso masculino é uma das coisas mais odiosas sobre esse planeta, sobre essa raça humana. A pimenta me arde, como se fosse com um dos meus, e nesse exato momento, então, eu penso - deixe que os americanos vibrem. Todos tem as suas razões, talvez embuídas num patriotismo, coisa tão desconhecida e quase impossível de se ter num país como esse, que ninguém sabe que país é.
Mas permaneço com a sensação estupidificante, na minha ignorância já citada. Por que é olhar e pensar, o que é o ser humano? O que é esse mal que extrapola, arrebenta as fronteiras internas desse mesmo ser humano? O mal está aqui, dentro, de mim, diariamente. Não sou, nem de longe, nem por uma fração de segundo, melhor por ficar pensando que as pessoas vibram com a morte de um ser humano, repito, apenas pensando, sem me ater a maiores aprofundamentos. Há que lutar contra o mal interno. Pelas minhas egoísticas razões, talvez. Mas, como uma vez escreveu o Caio Fernando, sinto falta da bondade, sinto nostalgia da bondade. A minha xará Frank, a Anne, escreveu que, apesar de tudo, ainda acreditava na bondade humana. Eu também quero, e mais ainda, quero acreditar na minha.
Mas junto com a crença nisso, tem que haver escudos, permanentes, porque o medo é grande, porque o mal, me parece, tem parcerias muitíssimos perigosas, como a loucura. Essa combinação é tão favorecida, é tão fácil de geminar, brota em qualquer canto. Mais uma vez Caio - 'qualquer avenida de grande cidade é um corredor de hospício', mas, não se enganem - aqui, na minha cidade, que apesar da extensão não tem a feição de "cidade grande", tinha um jovem homem que costumava esmurrar mulheres na rua - derrubou uma moça, enfermeira, com um soco, em frente ao hospital municipal (por que será que ele não derrubou um rapaz, não é mesmo?). Eu mesma, lá pelos 10, 12 anos, fui agredida numa calçada, do nada, ao virar uma esquina. Por uma mulher de rua? Não, que surpresa, por um homem de rua, provavelmente mais um louco. E colegas de escola que eram seguidas (naquele tempo não se usava termos como 'pedofilia'), repito, por homens, claro, e chegavam chorando na aula. Ou a minha ex-aluna, de dez anos, que veio desabafar comigo sobre as investidas, cada vez mais invasivas, do cunhado. Sim, um homem, adulto, casado com a irmã mais velha dela. Virei um fera, fiz relatório, acionei a escola, o conselho tutelar, acordamos a mãe dela pra vida e o cara saiu de perto. Como aquela pimenta me ardeu, e fico pensando em tantas outras que não conseguem desabafar, que não conseguem se safar. Então, eu diria, complementando o que o Caio disse, que qualquer rua de qualquer cidade é um corredor de hospício. E todas essas pessoas seguem soltas, nesse hospício coletivo, algumas domesticando seus instintos, outras simplesmente dando vazão a eles. Não, não feito os animais, deixemos os animais fora desta - eles tem suas próprias leis que cabem à sua espécie.
E há que domar nossos fantasmas, nossos demônios, e lidar com o medo. Toda hora o convite é "regue sua plantinha do mal", incessantemente. Onde isso vai parar, é o que todo mundo, todas as religiões, se perguntam, e criam-se refúgios nelas, e em todas as crenças possíveis.
E o Renato Russo sempre me emocionou com aquele verso - "...e você de que lado está? eu estou no lado do bem, com a luz, e com os anjos". Com um pouco de medo, esse agora da pieguice, quero estar nesse lado também, mais que quero, preciso, de luz. A escuridão precisa do contraste, e acho que, se a gente conseguir enxergar melhor o escuro, dá pra viver, quem sabe, até bem com ele, sem deixar que vaze, que se derrame pra fora e contamine, tanto, o outro.

30 de abr. de 2011

há muito tempo, em uma galáxia...





bolachuda, banguela, perninha torta, praia badaladíssima de santa terezinha, saudade de ti,minha mãe-menina.

as horas

você fica de bobeira, juntando papéis, colocando o que estava ali, lá, não arrumando nada no fim das contas, é já é quase meio dia

você sai pra almoçar fora, caminhar de mãos dadas um pouco, mas já tem que ir embora, soltar a mão da outra, receber o beijo de despedida e o contato se corta, as peles se afastam, e já são 3 horas da tarde

você deita na cama na tarde de sábado, pra recuperar o sono atrasado de tantos dias, acorda com dor de cabeça é já são oito horas da noite

e o dia já escureceu, o mundo lá fora engana que está parado, e amanhã já é maio, e quatro meses já se passaram

as horas de ócio soam como desperdício

as horas de sono viram uma ponte entre o dia e a noite, uma ponte que se materializa em lugares diferentes, lugares bizarros de sonho, sonhos que trazem o passado o tempo todo à porta, batendo ( e não tem olho mágico, mas aquele olho psicodélico do desenho da Pantera Cor-de-rosa que leva a um mundo paralelo)

"tempo,tempo,tempo, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio"
está macio demais, escorrendo demais, rápido, veloz, incompreensível.

"tiiiiime, it's on my side, yes, it is".

yes, it is. but behind me, behind us, hunting like a hungry wolf.

8 de mar. de 2011

"Tem que ser macho pra parir" ( Mari Nisemblat)

Poderosa Afrodite,

No dia de hoje, derrama de uma ânfora sagrada, algumas gotas de sabedoria, de classicismo, de elegância sobre nosso gênero tão desgastado.
Sabedoria, que essas gotas escorram sobre aquelas horas e horas esperadas pelo telefonema que nunca vem, e sobre as sequenciais justificativas que criamos para a ausência do mesmo, sempre inventando desculpas para o simples desinteresse. Que essas gotas, ó, Poderosa Afrodite, tenham o poder de paralisar mãos nervosas sobre teclados de celulares, impedindo os dedos de enviarem mensagens raivosas, descontroladas, humilhantes e pedintes de corações mendigos, sedentos de atenção, carentes profissionais.
Classicismo, ó Poderosa, sobre aquelas de nós que balançam a bunda em raio-x constante, fazendo disso o seu único meio de viver e criando, às vezes, a ideia de que quem estuda e trabalha realmente pra ganhar a vida é recalcada, invejosa e feia; sobre as que pernoitam nas camas de bronzeamento, açoitando o que é de mais frágil e perecível, nosso envoltório desprotegido ao câncer de pele; sobre as que estampam o Olimpo da beleza perfeita e nos obrigam, pobres mortais, a suar em bicas nas academias da vida e passar fome nas dietas obssessivas porque o modelo mais rechonchudinho já saiu de moda lá na Renascença.
Elegância, Poderosa Afrodite, elegância que escorra em suave gotas restauradoras sobre nossas reles cabeças quando as predadoras de nossa espécie perderem o respeito pelas fronteiras de nosso território, queimando nossa linha pelos orkuts, olhares, e-mails ou abordagem ao vivo e a cores. Elegância em doses ainda maiores quando o momento da discussão chegar, para que não recorramos a termos de baixo calão, reforçando, a cada palavra, o tal mito de que somos descontroladas, loucas e chatas.
Paciência, ó, Poderosíssima, paciência para suportar o nojo, a raiva, quando empurradas mais uma vez pelo machismo que ainda reina; para continuar, mesmo quando agredidas verbalmente ( e fisicamente) com supostas cantadas que na verdade são a eterna reafirmação do macho que se dá ao direito de expor sua lascívia sem limites; paciência para com aquelas nossas representantes que, orgulhosas de sua ignorância e de seu único meio de trabalho, o corpo, nos fazem, por tabela, suas semelhantes, embora partilhemos somente o mesmo gênero.
Paciência, ainda, para ensinar, tal qual professora que alfabetiza, os homens de que não somos a mãe fazedora de comida, lavadora de roupas e cuidadora de filhos e com o saboroso plus da ótima abertura de pernas.
Poderosa Afrodite, que isto está ficando sério demais - acima de tudo, bom humor, gotas generosas de bom humor, litros, um banho completo, para atravessar os períodos de seca criativa, de enchente hormonal, de invasões bárbaras à nossa intimidade, de entresafra entre o ser e não ser, sempre a questão. Bom humor pra rir de nós mesmas, mesmo quando não achamos a menor graça.


Dedicado à
Cecília, Mariana e Nina Nisemblat
Luciane Glaeser
Carla Soares e Viviane Sallati
Marlise Damin,Glau Barros, Vanessa Greff,
Ligia Sávio, Clotilde Favalli e Mara Jardim
Clarice, Virginia, Cecília, Dorothy, Ligia, Jane, Florbela, Emily
e outras tantas que honram nosso gênero.

Voltemos agora à programação normal.

7 de mar. de 2011

Why so quiet?

Como retorno triunfal ao blog, dedicarei alguns posts a temas a cerca do nosso abalado, polêmico e sempre instigante mundo feminino, afinal, Dia Internacional da Mulher - vá buscar sua rosa murcha nas melhores casas de comércio do burgo.

Fim de tarde, cabeleireira. As coisas boas de um salão de beleza - aquelas revistas todas que eu não gasto dinheiro, nunca, tipo Nova, Claudia, Contigo...Sento pra esperar - ser atendida na hora marcada? Em salão de beleza? Acho que é lenda urbana. Então, leitora voraz, me apego num texto sobre uma mulher que ficou perdida numa floresta, sozinha, por 17 dias. Ao meu redor, a parte ruim do salão de beleza, as mulheres conversando em voz alta ( geralmente irritante), aquelas outras sentadas observando, com olho de lince, cada movimento da cabeleireira no cabelo de alguém, pelo espelho. Mas a dona é gente boa e ótima profissional. Vou pra cadeira lavar as melenas, levo a revista junto, daqui a pouco tenho que ir pra cadeira cortar a franja, secar, não vai dar tempo de ler tudo. Nesse ínterim, sentada, sossegada, chega a manicure da casa, para ao meu lado e diz algo como: "E tu, que eu não ouvi a voz ainda até agora? Não falou nenhuma palavra! Tu é quieta, hein?" Bom, logicamente a moça era a voz mais ouvida dentro do estabelecimento até então, aquela da voz alta e irritante ( mas eu estava tão na paz, dentro da historinha da revista Claudia, que nem me afetou tanto, ouvia ao longe, só). A cabeleireira, que subiu ainda mais no meu conceito "gente boa" disse, "Ah, ela não é de falar muito. Eu, às vezes, até pago pra não falar". E eu, subitamente arrancada do meu silêncio, disse "Por que será que os quietinhos incomodam tanto os faladores?"
Várias perguntas me vieram à cabeça, naquele instante, com a costumeira desordem. Por que mesmo, ó Deus, por que o silêncio alheio incomoda tanto as pessoas? Por que os quietos desinquietam os falastrões? Por que aquela fulana, que vinha monologando há mais de meia hora, pra quem quisesse e quem não quisesse ouvir, tinha que se dirigir à mim, pobre criatura recolhida ao seu insignificante ( pelo visto nem tanto) silêncio e paz, e me invadir com perguntas, sendo que nunca a tinha visto antes, e não dera a mínima abertura para tanto?
Aí me veio uma frase que li há tempos na Internet, no blog Nervocalm Gotas - "os quietinhos são quietinhos porque os faladores nunca fazem perguntas". Ao que eu acrescentaria, de acordo com o episódio-salão de beleza - "nunca fazem perguntas com a única exceção da fatídica 'por que tu não fala nada?' "
E olha que esse é o salão mais light que frequentei na minha cidade. Pequeno, discreto, gente como a gente. Sim, os salões de beleza em geral são muito concentradores de mulheres. E mulheres, segundo reza a lenda, falam muito. Mas como evitar a generalização de tudo é, pelo menos pra mim, um aprendizado constante, vamos nos ater às exceções. Que podem ser muitas. E deixemos os quietinhos um pouco mais em paz. Talvez eles nãos sejam tímidos, apenas não tem nada à dizer naquele momento, o que é melhor do que abrir a boca só pra dizer besteiras - infelizmente a opção mais escolhida.
Ah, as mulheres quietas... Elas tem um mistério, elas despertam curiosidade, elas podem sim, ser interessantes. Quantas vezes eu vejo e ouço outras representantes do meu gênero alardeando, com orgulho, seu hábito de falar, falar, falar pelos cotovelos? Talvez seja a hora dos quietos, e quietas, especialmente, alardearem, com mais orgulho, sua capacidade de silêncio, de não ficar despejando sua vida ( com detalhes íntimos de brinde) pra tudo que é lado, e depois retornarem com a queixa que a siclana é fofoqueira. Calma lá, você foi contar pra colega, pra conhecida, pra moça do café,sobre sua vida sexual? Sobre seu antidepressivo? Sobre sua dívida enorme no banco? Como dizia Quintana, seu melhor amigo tem um melhor amigo, para o qual conta tudo, e conta de você inclusive. E isso que é melhor amigo...Agora imagine a moça do café, a conhecida, a...manicure?
Devo estar pecando pelo exagero, é o calor do momento. Claro que todos estão sujeitos a escorregões, a escapadelas verbais que virão te cobrar mais adiante. Não é o caso de pregar a total reclusão verbal, o que pode passar uma antipatia, uma arrogância ( outras pechas das quais os quietos sofrem...). Mas... pelo direito de ficar em silêncio, quando se pode ficar em silêncio. Pelo direito do quieto ser falador, também, quando tiver vontade, ou, para ser mais realista, quando tiver oportunidade, a oportunidade que os faladores podem conceder, também, vez por outra.