pego no sono, dentro do trem
vou parar na última estação
até o cobrador sumiu, não há ninguém
redemoinho de folhas pelo chão
o vento joga papéis na minha cara
tem um com mensagens cifradas
mas um código decifro, coração dispara
tudo muito claro nas letras embaralhadas
sento por ali, é um vento de temporal
decoro a mensagens enviadas
antes que a água da chuva, proposital
deixe todas as letras apagadas
não há pressa de ir embora
não temo mais esse lugar ermo
sabia que um dia ia chegar a hora
antes que pusesse tudo à termo
de longe, apita o trem
levanto, o vento pára, ele vem me buscar
embarco, ainda não há ninguém
perdi, finalmente, o medo
de voltar
17 de set. de 2007
14 de set. de 2007
the collectors
tem gente colecionando certezas
eu já colecionei figurinha
papel de carta, cartão telefônico
mônica e tampinha
no limbo, em algum inescrutável
reino além
minhas coleções se perderam,
para todo o sempre, amém
agora, veja só como já parte o trem
uma por uma
as certezas para lá
se dirigem
também
eu já colecionei figurinha
papel de carta, cartão telefônico
mônica e tampinha
no limbo, em algum inescrutável
reino além
minhas coleções se perderam,
para todo o sempre, amém
agora, veja só como já parte o trem
uma por uma
as certezas para lá
se dirigem
também
6 de set. de 2007
Volver
Vou ver Volver. Amanhã é dia de acordar cedo, diz o lado caxias da consciência. Mas...alguma coisa, do outro lado do cérebro, naquela região tão inexplorada, te diz: vai que rende.
Então tá, meia volta, volver. Vou ver Volver ( perdoem o trocadilho infame, mas é irresistível, aguardem os próximos).
E o filme começa, sinto certo temor, afinal, Fale com Ela ainda repercutia de várias maneiras. Pode um artista se superar?
Sim, pode. Mas eu ouso dizer que neste filme Almodóvar não se supera. Talvez a obra máxima tenha sido Fale com Ela? A que resumiu tudo, até no título. Falem com a gente, rapazes, esse é o recado de um cara que saca muito as mulheres. Ele não saca de mulher. Ele saca da mulher.
E, depois de Fale com Ela, ele vem com Volver, que poderia ter um subtítulo ( graças a Deus que dessa vez não puseram) como "Elas Falam".
Em Volver, a mulher é alpha. Ela supera o seu próprio rótulo de "sexo frágil" e segura todas. Com paciência, com determinação. Ela acolhe seu próprio destino e paga o seu preço de sofrimento. E ainda tem tempo de carregar na maquiagem, usar roupas coloridas e dar muita risada.
Os personagens ( vou usar o feminino que na literatura a cerca da dramaturgia se usa, mas muito mais porque estamos a falar de poder e glória ), digo, as personagens tem histórias de vida como eu, como tu, como qualquer um tem,seja em que confim perdido do planeta. Beijam-se com real afeição, entre amigas - existe uma irmanação, acima da competição. Um sentido realmente prático de quebrar galhos, que é inerente ao feminino, emerge no melhor sentido de "uma mão lava a outra". Reclamando, explodindo, virando a cara, como é na vida dos mortais. Quando Penélope Cruz chora, sua maquiagem fica borrada e ela tem o rosto inchado. Mas a vida tem que continuar: amanhã há que se levantar cedo. E ninguém - só mesmo em Hollywood - consegue levantar com o baby-liss intacto na manhã seguinte.
Tudo isso pra dizer que: Volver é tão seu título como há muito tempo não se via. As personagens se dão o direito de voltar atrás. Se dão o direito de voltar a vida. A mãe ressuscita - a morte, na "película", é um disfarce que esconde decisões drásticas. As personagens se dão até, o direito de matar, em nome do que é de mais instintivo na sua condição humana. E esse direito bebe na fonte dessa coisa tão substimada, tão deturpada por estranhas representantes do nosso sexo, tão escondida em certos interiores, que é: o poder. e sua reação, a glória.
E esse poder, que muitas vezes vem seguido de glórias delicadas, escondidas, quase invisíveis, é como um fio condutor que passa de geração para geração. Mas como boas mulheres, carregam também a marca da tragédia. Que parece que vem pelo sangue ( coisa que tem participação no filme, o vermelho maior, o vermelho original ) - o que acontece com a mãe, repete-se com a filha, e se mata, e se morre em vida, e se suporta, em nome de algo muito maior. A espera é inerente a condição feminina, mas o poder, o poder quando escondido e reavivado, transforma a espera em ação. E a glória, cada uma escolha de que maneira ela vai se dar. De alguma forma, ela vem, tão camuflada que nem sempre se percebe. Hay que estar despierta.
As flores, vermelhas, se abrem nos créditos finais - manifestações de algo que precisava nascer. A beleza das personagens se traduz nas rugas, nos sapatos baratos, na pele não tão boa, nas marcas de uma noite ruim. Se traduz nas coisas que se cala e nos gestos silenciosos.
Muy bien hecho, señor. Almodóvar nos fala. Nos celebra. Nos coloca de novo no nosso posto de deusas, de verdadeiras sacerdotizas espalhadas pelas ruas de uma cidade. Mas, pensei: de uma forma muito humana, muito verdadeira, muito mortal. Poder e glória reside também na efemeridade da flor - estejamos acordadas no momento de se abrir. Hay que estar despierta.
Meia volta, Volver. Vá ver, não concorde comigo, sinta-se teleguiada (o)-atenção, aqui neste texto o (o) vem depois do a - por minhas impressões, não importa.
Só peço: escute. Ele fala com a gente. Ele fala com elas. Ele deixa elas falarem.
Então tá, meia volta, volver. Vou ver Volver ( perdoem o trocadilho infame, mas é irresistível, aguardem os próximos).
E o filme começa, sinto certo temor, afinal, Fale com Ela ainda repercutia de várias maneiras. Pode um artista se superar?
Sim, pode. Mas eu ouso dizer que neste filme Almodóvar não se supera. Talvez a obra máxima tenha sido Fale com Ela? A que resumiu tudo, até no título. Falem com a gente, rapazes, esse é o recado de um cara que saca muito as mulheres. Ele não saca de mulher. Ele saca da mulher.
E, depois de Fale com Ela, ele vem com Volver, que poderia ter um subtítulo ( graças a Deus que dessa vez não puseram) como "Elas Falam".
Em Volver, a mulher é alpha. Ela supera o seu próprio rótulo de "sexo frágil" e segura todas. Com paciência, com determinação. Ela acolhe seu próprio destino e paga o seu preço de sofrimento. E ainda tem tempo de carregar na maquiagem, usar roupas coloridas e dar muita risada.
Os personagens ( vou usar o feminino que na literatura a cerca da dramaturgia se usa, mas muito mais porque estamos a falar de poder e glória ), digo, as personagens tem histórias de vida como eu, como tu, como qualquer um tem,seja em que confim perdido do planeta. Beijam-se com real afeição, entre amigas - existe uma irmanação, acima da competição. Um sentido realmente prático de quebrar galhos, que é inerente ao feminino, emerge no melhor sentido de "uma mão lava a outra". Reclamando, explodindo, virando a cara, como é na vida dos mortais. Quando Penélope Cruz chora, sua maquiagem fica borrada e ela tem o rosto inchado. Mas a vida tem que continuar: amanhã há que se levantar cedo. E ninguém - só mesmo em Hollywood - consegue levantar com o baby-liss intacto na manhã seguinte.
Tudo isso pra dizer que: Volver é tão seu título como há muito tempo não se via. As personagens se dão o direito de voltar atrás. Se dão o direito de voltar a vida. A mãe ressuscita - a morte, na "película", é um disfarce que esconde decisões drásticas. As personagens se dão até, o direito de matar, em nome do que é de mais instintivo na sua condição humana. E esse direito bebe na fonte dessa coisa tão substimada, tão deturpada por estranhas representantes do nosso sexo, tão escondida em certos interiores, que é: o poder. e sua reação, a glória.
E esse poder, que muitas vezes vem seguido de glórias delicadas, escondidas, quase invisíveis, é como um fio condutor que passa de geração para geração. Mas como boas mulheres, carregam também a marca da tragédia. Que parece que vem pelo sangue ( coisa que tem participação no filme, o vermelho maior, o vermelho original ) - o que acontece com a mãe, repete-se com a filha, e se mata, e se morre em vida, e se suporta, em nome de algo muito maior. A espera é inerente a condição feminina, mas o poder, o poder quando escondido e reavivado, transforma a espera em ação. E a glória, cada uma escolha de que maneira ela vai se dar. De alguma forma, ela vem, tão camuflada que nem sempre se percebe. Hay que estar despierta.
As flores, vermelhas, se abrem nos créditos finais - manifestações de algo que precisava nascer. A beleza das personagens se traduz nas rugas, nos sapatos baratos, na pele não tão boa, nas marcas de uma noite ruim. Se traduz nas coisas que se cala e nos gestos silenciosos.
Muy bien hecho, señor. Almodóvar nos fala. Nos celebra. Nos coloca de novo no nosso posto de deusas, de verdadeiras sacerdotizas espalhadas pelas ruas de uma cidade. Mas, pensei: de uma forma muito humana, muito verdadeira, muito mortal. Poder e glória reside também na efemeridade da flor - estejamos acordadas no momento de se abrir. Hay que estar despierta.
Meia volta, Volver. Vá ver, não concorde comigo, sinta-se teleguiada (o)-atenção, aqui neste texto o (o) vem depois do a - por minhas impressões, não importa.
Só peço: escute. Ele fala com a gente. Ele fala com elas. Ele deixa elas falarem.
wonderland
não era apenas um espelho
como Alice, depois vi que não
como Alice, segui o coelho
fiz de tudo, a minha projeção
carreguei nas cores surreais
do caminho, fazendo tela
da paisagem, cenário
virei as costas para a fantasia
mais singela
afundando em poças de tinta
com ou sem companhia
deixo a cargo da mente
vejo o que ela pinta
e nem sempre importa tanto assim
que se minta
como Alice, depois vi que não
como Alice, segui o coelho
fiz de tudo, a minha projeção
carreguei nas cores surreais
do caminho, fazendo tela
da paisagem, cenário
virei as costas para a fantasia
mais singela
afundando em poças de tinta
com ou sem companhia
deixo a cargo da mente
vejo o que ela pinta
e nem sempre importa tanto assim
que se minta
3 de set. de 2007
segunda
segunda-feira, havia quase esquecido
instinto homicida
ponho a música no ouvido
e marcho com a falange
fique longe da minha vida
instinto homicida
ponho a música no ouvido
e marcho com a falange
fique longe da minha vida
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