13 de jul. de 2010

A mitologia do depósito

Fiquei pensando (delay, delay) na morte do Saramago. E isso me levou a pensart numa frase do Borges, em que ele dizia que amava tanto certos livros que os considerava seus. Acho que pode ser aí o momento em que o mito se espatifa. Quando o mito ( seja o livro, o autor, a obra de arte em geral) dá a sensação de que nos pertence.
Muitas coisas na minha vida ( literária, pra começar) eu já tinha tomado pra mim antes de saber que eram mitos. Ou pelo menos, grandes figuras, grandes livros. veja bem: Erico Verissimo. Quando eu era criança pequena, na casa da minha família tinha uma espédie de mini-depósito. Um quartinho estreito, com prateleiras até o teto, onde se guardavam velharias, cacarecos familiares. O que tinha lá: ternos antigos do meu pai, com cheiro de naftalina; sapatos,provas de colégio dos irmãos, vinis, enfim, cacarecos. Eu costuma escalar, que nem macaco, aquelas prateleiras, me empoleirava lá em cima, pertinho do teto, e passava lá algumas boas horas, me entretendo com aquilo tudo. Pois bem, no meio da papelada lá na última prateleira, tinha um livro, sem capa, velhinho, jogado. O nome do livro era "Música ao Longe". O autor, Erico. Mas que sabia eu de Erico? Fui saber anos depois. Li o livro todo, encantamento puro. Assim, aos 8 anos, recebi aquele presente totalmente tábula rasa.
Assim acabou acontecendo com vários autores. Cem anos de solidão: eu tinha 13 anos, e a mania de pegar livros de autores assim, mitos, cuja existência eu nem suspeitava, muito menos de Nobel da Literatura e penduricalhos. O que me atraiu foi a capa daquela edição - uma carta de tarô, a Roda da Fortuna... Me assustei dos Cem Anos, não era época ainda. Devolvi sem passar das primeiras 5 páginas, barreira intransponível. Uns dois, três anos depois chegou a hora do deslumbramento.
Com o Saramago, eu já não era tão inocente - mas mesmo assim fui ao encontro sem grandes feedbacks, o que é sempre melhor, sempre preferível. Comecei errado, comecei com Jangada de Pedra - o primeiro dele não poderia ser o meu primeiro, acho. Depois, quando as coisas se assentam melhor dentro da gente com o passar dos anos, a gente se assenta melhor com alguns livros - e autores. Sempre correndo por fora, consegui ler outros livros dele antes de estudá-lo no final da faculdade de letras - o que é muito importante, ter a prática antes da teoria - no caso da literatura, que onde me movimento um pouco melhor. Claro que se for alguém da área da medicina a ideia é risivel.
Mas, voltando ao Borges, o Saramago, dentre outros autores, é o cara que tem alguns livros que parecem que são meus. Eu os quero, no entanto, talvez milhares sintam o mesmo, o que dá um certo ciúme... Depois parece que vira modinha besta. Mas não perde a graça se se for esperto - procurar uns meandros aqui e ali, não sair propagandeando demais certas entrelinhas, pelo menos pra não ter a decepção de perceber que tu não foi o único no mundo a ter aquele insight sobre determinado romance ou trecho.
E eu me pergunto, no final de tudo, digo, no final do post, como seria a vida sem essas pessoas. Sem esses livros. Talvez fosse diferente, se eu não gostasse de literatura. Tudo é história, tudo é contado, todos se contam, contam tudo a todo momento. A fofoca ínfima é um enredo. É a vida que alimenta a literatura. Mas as pessoas gostam mais de falar, muito mais que ouvir, e muito mais ainda do que ler. Que se há de fazer? Nada. Eu sigo usufruindo do meu prazer, da espécie de júbilo interior de ter passando pelas minhas mãos tantas coisas valiosas que meus olhos podem ter contato.
Credito um pouco ao vinho esse arroubo. Obrigado,seu vinho.
Boa noite e boa sorte.