17 de ago. de 2008

To be continued

À minha frente, uma foto de John e Yoko. Os dois, lado a lado, me lembram Vitor Ramil - “vem, anda comigo, pelo planeta, vamos sumir, vem, nada nos prende, ombro no ombro, vamos sair”. Ombro no ombro: o pouco que sei dos dois me traz essa analogia, ou algo mais piegas e sentimental, como “amar não é olhar um para o outro, mas olhar na mesma direção”. E lá estão John e Yoko, olhando na mesma direção, e eu nem era nascida. O clipe que Yoko fez sobre a canção “Woman” sempre me faz derramar umas lágrimas, em especial, no final, encerrando com aquele pungente “to be continued”, como nos seriados americanos, quando a gente fica esperando pelo próximo capítulo pra ver, pombas, o que vai acontecer. Os dois caminham pelo Central Park, belos, serenos, ombro no ombro, não se olham nos olhos - seria necessário? É o que todos nos almejamos, afinal? É o que dá sentido, ou é apenas mais uma invenção dos fabricantes de cartões românticos?
Pergunto sem querer respostas, não enviem cartas para a redação, deixem que as questões pairem no ar, como paira a foto deles no meu mural, agridoce.Há os que conseguem, mas um tiro, um outro, ou outra, ou a falta do vil metal, ou o hábito, ou as mazelas do microcosmo do cotidiano, e tudo o mais que cada um sabe nomear sem palavras, subtraem. E o sentido, a duras penas conquistado, vai pelo ralo, junto com a água do banho. Às vezes penso que a maçã do paraíso tem gravada nela a palavra “fim”. Faz parte do esquema, eu sei, faz parte do “game”. Mas a consciência do fim, seja representado pela morte ou pelas subtrações, parece que é o que rouba o sentido.
São apenas constatações. Sem pretensões. A palavra foi feita pra isso, pra ser escrita, ouvida, falada, lida, não necessariamente nessa mesma ordem. E a palavra “amor” é mais uma.Mas essa foto, no meu mural, me sinaliza que não, que não é só mais uma palavra, e que o passado, de gente como John e Yoko, acaba estampando uma parede de uma casa qualquer, no fim do fundo da América do Sul, porque não é afinal, caramba... só mais uma palavra.

9 de ago. de 2008

virtual virtuose

estabelecer por essas linhas flutuantes virtuais uma tentativa de conexão
lembrando alguma quase esquecida noção sobre recepção
SOS sem identificação, abuso desenfreado de sinais
eu, tu e eles, Os Outros, quem sabe assim, existamos mais

são para alguns pares de olhos que o hermético se torna legível
versos salvos de um abandono com data de validade, perecível
devagar, letras formam palavras, símbolos irremediáveis já estabelecidos
para os teus olhos, quem sabe, meus signos formem sentidos

e esta tela, por um instante, se torna um espelho de Alice
portal ambíguo pelo qual sempre se esperou que existisse
e esse instante, subjugado pela vontade, assume feição de eternidade
o mundo palpável se verga e esquece daquele prazo de validade

ah, se Alice me visse agora
transformar em eterna essa minha curta hora
se Alice pudesse ser eu, e eu Alice
duplaríamos em um roteiro, escrevendo sobre tudo que nunca se disse

14 de jul. de 2008

Uso-fruto temático

Hoje eu voltava do super com quatro sacolas. No cordão da minha calçada, estava sentado um menino. Ele vive "por aí": dorme às vezes na rua, ou em algum abrigo. Pede comida, zanza pela cidade. Tem uns olhos imensos e, acredite, ingênuos. Ele é tão bonito: tem aqueles cílios grossos que emolduram os olhos, algo meio cigano, meio catalão, e a íris não se diferencia da pupila, é tudo uma morna escuridão. Como eu presto atenção nesses detalhes? Respondo com uma frase de Jude Law em Closer: "because I'm a lunatic".
Sei, isso parece mais um daqueles textos melodramáticos, autocomplacentes, de quem se apieda e nada faz. Sim, eu me apiedo e nada faço, ou dar um prato de comida, uma banana, uma garrafinha de refri e dois reais é fazer alguma coisa? Fiquei com vergonha de mim. Fiquei com vergonha de morar num país assim, numa sociedade assim, fiquei com vergonha de gostar mais desse menino que já encontrei várias vezes do que do Caixa Baixa, outro menino que "vive por aí" e que já tem planos concretos de ser bandido quando crescer. Tá no olho. Qual dos dois é mais ingênuo? Quando eu perguntei pro Caixa Baixa o nome dele, ele se requebrou,lançou os dois indicadores estilo hip-hop-bandidagem, e disse, meu nome é Caixa Baixa, Zé Pequeno, Mané Galinha, parafraseando Cidade de Deus. Achei tão engraçado. Depois achei absurdo achar engraçado. Depois achei engraçado de novo. Daí misturou cinema, fantasia, personagem, tudo se imiscuindo na realidade drummondiana "eta vida besta, meu deus".
Depois, claro, entrei para dentro do meu mundo interior e seus pequenos-grandes problemas. As I said, I'm a lunatic.
Mas e então, penso, e pra jantar, o que o moleque-de-rua-mas-do-bem vai ter? Vou ficar,será, pensando nele? E todas as moedas que eu já dei, e que não aliviam essa culpa intrínseca? Não posso ficar pensando. E o sucedâneo de paz que se conquista, por vezes, à duríssimas penas, jogo pelo ralo assim, por causa de uns olhos emoldurados de cigano?
Tudo é mesmo uma grande encenação: eles são personagens, e, como o Caixa Baixa, personagens de personagens, quando a vida vira metalinguagem. Servem de escadas, coadjuvantes exemplares, para outros brilharem: são temas de campanha, são temas de novela, de contos, de manchetes de jornais e, claro, você já percebeu, estava mais que previsível: são temas de posts de uma escritora (?) sofrendo de sério bloqueio criativo nos últimos tempos.
Eu o aliviei com um prato de comida, uns trocados, uma banana, um refri, em troca, ele me deu um post. E é assim que a vida é.

8 de jun. de 2008

névoa neblina, brumas serrações

Londres é aqui.
Há pouco saí à rua e vi, envolvendo a lâmpada que ilumina meu caminho, uma bruma. Uma serração, termo bem gaúcho. Névoa. Neblina. Adoro todas essas palavras:bruma, névoa, neblina, serração. Tão aliteráveis, tão simbolistas. E sempre que por aqui, nesta simbólica terra dos pampas, acontece esse fenômeno, à reboque, claro, vem o mistério.
O mistério de existir. O mistério do tempo, do clima, do ar, que parece atemporal, que parece atravessar séculos e desembarcar aqui, numa noite de domingo de inverno.
E isso, que agora elaboro, me passou, enquanto entrava em casa de novo - e fez bem. Mesmo que compartimentalizada dentro de um meio urbano, com espaços delimitados, nichos demarcados e quase não tocando o chão de verdade com os pés, existe algo. Ainda existe um mistério. Uma bruma que encobre, uma névoa silenciosa, o mistério da natureza, que, mesmo esmagada, escondida, apertada em meio ao cimento, manda esses sinais, discretos, quase imperceptíveis.
A brumas também pairam aqui, no fim do fundo da América do Sul, a bruma lá (fog) e a bruma aqui (serração).
Londres é aqui.
E viva o Rio Grande do Sul.

19 de jan. de 2008

A curva do caminho

Uns dizem que a infância é a melhor fase da vida. "O menino é o pai do homem", e dele se arvora com direitos adquiridos. Direitos inerentes à função de pai. Se o menino é pai do homem, talvez fosse mais fácil criar uma idéia de Deus. ( Mas isso deve ser um capítulo à parte, como aquele conto de uma antologia qualquer que deixamos pra ler por último, porque o início estava desprovido daquelas setas fatais que já te atingem de primeira ao primeiro passar de olhos ).
Cruzando a curva da terceira década,ao olharmos pra trás, onde percebemos que o pai do homem nos acena alguns metros mais distante, sussurro onde o vento é mais capaz de transportar meus sons: pai, porque me abandonaste? E eu mesmo respondo, dois em um:perdoa-os, eles não sabem o que fazem. Perdoa a ti mesmo, habitante da curva do caminho. Perdoa este pai que lá no início, tábula rasa, não sabia da curva. Mais difícil, talvez, seja perdoar aqueles que disso sabiam e que te forjaram uma paternidade que depois te mostraria ser tão solitária.Não é para ser hermético, então esmiucemos ( alguns verbos no português ficam realmente freaks em sua conjugação). Para quem teve uma educação católica, em nome da obrigação que fosse, a noção de pecado faz do pai-menino uma espécie de ferida-aberta-para-sempre. E logo naquela fase tenra, idílica, a fase de forjar a paternidade. Logo ali a ferida se abre, em nome de algumas leis atribuídas ao divino e que foram criadas séculos antes que o teu átomo primevo existisse. Semanas e semanas de martírio antes da primeira confissão - de repente, aquilo que o corpo fazia instintivamente, tinha um nome: pecado. O pai do homem, o pai-menino amadurece de sopetão, acreditando, sem escape, de que eles, Os Outros, sabem o que fazem.
Pai-menino, tábula-rasa, descobriu lá atrás que o pecado é o pai, tão velho, da culpa. Observo meu pai me acenando, lá atrás: quero ensinar a essa criança que tudo é bem mais relativo do que parece. Quero ensinar ao meu pai-menino que eles, Os Outros, nem sempre sabem o que fazem. Que aqueles escrafunchos na ferida recém-aberta devem ser responsabilidade daquele que empunha a agulha. De que a palavra "culpa" não deve constar tão cedo no seu dicionário. Que outras palavras que eu sei agora ( que ele saberá depois), aqui, na curva do caminho, das quais lanço mão, podem ter um significado muito mais limpo, muito mais livre.Meu pai-menino não é um menor abandonado - faço dele um símbolo de alguma resistência ingênua, ainda utópica, que teima, depois de tantos muros ruírem, em existir.
A operação de salvamento do pai-menino urge ser feita aqui, agora, já, nesta curva do caminho.