Vagando na internet, com a tv ligada, fico sabendo, em primeira mão, que o bin Laden foi morto. Logo em seguida, 0:35 da madrugada de segunda, Obama faz seu pronunciamento ao vivo, que eu assisto pela Record News. Vários minutos depois, talvez uns quarenta, ou mais, a rede Globo transmite o mesmo pronunciamento, com aquelas letrinhas safadas de "ao vivo" no cantinho da tela... como se eles tivessem a supremacia de serem os que divulgam tudo primeiro. E a Patricia Poeta com cara de sono, o brinco um pouco desajeitado, acho que foram buscá-la na saída do Projac, será?
Bobagens à parte, corta para a frente da Casa Branca, multidão crescente, comemorando muito. Comemorando, vibrando, com sanguenozóio, a morte. A morte de um ser humano. Por mais desprezível, horrendo e tudo o mais que ele seja, é um ser humano. Merecia morrer, quem responde a isso? Quem sou eu para dissertar sobre o terrorismo, política internacional, direitos humanos, atentados ao World Trade? Ninguém, lógico. De tudo, me ficou aquela estupidificação dos que ignoram as verdades alheias, ou as verdades incontestáveis. Apenas, saliento, apenas me quedei pensando que a humanidade é assim - sejam lá quais os motivos forem, justos ou não, não é isso que está em questão neste texto, comemora-se a morte de alguém. Talvez se alguém querido a mim tivesse morrido debaixo daqueles escombros, lá em NY, eu estivesse também vibrando, de acordo com a regra básica de que pimenta nos outros é refresco, em mim arde pra caramba. É fácil pensar em direitos humanos, em penas justas, em ser contra a pena de morte, quando felizmente nada de horrível aconteceu aos nossos entes queridos, seria isso? Mas também, através da empatia, podemos nos solidarizar com o sofrimento de pessoas distantes de nosso círculo, e sentir, de empréstimo, a gana da vingança, da justiça. Coisa recorrente, apavorantemente recorrente hoje em dia, todo dia, todas as horas - uma espécie de impotência que a injustiça causa, um aniquilamento, um soterramento de esperança contínuo, implacável.
O que suponho, e com certeza não estou descobrindo a pólvora ou a cura de uma doença fatal, é que o mal, ah, o mal é inerente. Difícil de aceitar,por vezes, difícil de acreditar. É aquela velha e batida metáfora da ladeira, fazer o mal é só descer, vai que é um doce, fácil e escorreito. E o negócio é tão variado, é tão sortido,de tantas formas se pode fazer o mal, tantas formas ele assume. E eu me pergunto, se vibrar, se comemorar a morte de um ser humano, é deixar o mal vibrar junto? Como se paga um mal feito? "Aqui se faz aqui se paga" - não se aplicaria nesse caso. A vida é o bem mais precioso, e o fim dela paga todo o mal feito? Apaga-se o ser.
Num país como esse, como o nosso (que país é esse? mistério insolúvel), onde as pessoas simplesmente se safam de penas que já são por si, leves, o jeito seria matá-las, uma vez que dez, quando muito, anos de encarceramento seriam pouco pra punir o matador, o estuprador, o destruidor, o ceifador? O expurgo dos podres, dos contaminados, dos que cultivam, consciente ou inconscientemente, o mato do mal e deixam ele transbordar, venenoso, para o outro. Uma das piores coisas, talvez, seja a maldade imposta aos que não tem, de jeito nenhum, como se defender. Meu sangue nos olhos particular, minha gana homicida, minha vontade de amputações bárbaras, de torturas medievais? Estupradores, em especial de crianças. Não sei se é feminismo, se é equívoco, seja lá o que for - o abuso masculino é uma das coisas mais odiosas sobre esse planeta, sobre essa raça humana. A pimenta me arde, como se fosse com um dos meus, e nesse exato momento, então, eu penso - deixe que os americanos vibrem. Todos tem as suas razões, talvez embuídas num patriotismo, coisa tão desconhecida e quase impossível de se ter num país como esse, que ninguém sabe que país é.
Mas permaneço com a sensação estupidificante, na minha ignorância já citada. Por que é olhar e pensar, o que é o ser humano? O que é esse mal que extrapola, arrebenta as fronteiras internas desse mesmo ser humano? O mal está aqui, dentro, de mim, diariamente. Não sou, nem de longe, nem por uma fração de segundo, melhor por ficar pensando que as pessoas vibram com a morte de um ser humano, repito, apenas pensando, sem me ater a maiores aprofundamentos. Há que lutar contra o mal interno. Pelas minhas egoísticas razões, talvez. Mas, como uma vez escreveu o Caio Fernando, sinto falta da bondade, sinto nostalgia da bondade. A minha xará Frank, a Anne, escreveu que, apesar de tudo, ainda acreditava na bondade humana. Eu também quero, e mais ainda, quero acreditar na minha.
Mas permaneço com a sensação estupidificante, na minha ignorância já citada. Por que é olhar e pensar, o que é o ser humano? O que é esse mal que extrapola, arrebenta as fronteiras internas desse mesmo ser humano? O mal está aqui, dentro, de mim, diariamente. Não sou, nem de longe, nem por uma fração de segundo, melhor por ficar pensando que as pessoas vibram com a morte de um ser humano, repito, apenas pensando, sem me ater a maiores aprofundamentos. Há que lutar contra o mal interno. Pelas minhas egoísticas razões, talvez. Mas, como uma vez escreveu o Caio Fernando, sinto falta da bondade, sinto nostalgia da bondade. A minha xará Frank, a Anne, escreveu que, apesar de tudo, ainda acreditava na bondade humana. Eu também quero, e mais ainda, quero acreditar na minha.
Mas junto com a crença nisso, tem que haver escudos, permanentes, porque o medo é grande, porque o mal, me parece, tem parcerias muitíssimos perigosas, como a loucura. Essa combinação é tão favorecida, é tão fácil de geminar, brota em qualquer canto. Mais uma vez Caio - 'qualquer avenida de grande cidade é um corredor de hospício', mas, não se enganem - aqui, na minha cidade, que apesar da extensão não tem a feição de "cidade grande", tinha um jovem homem que costumava esmurrar mulheres na rua - derrubou uma moça, enfermeira, com um soco, em frente ao hospital municipal (por que será que ele não derrubou um rapaz, não é mesmo?). Eu mesma, lá pelos 10, 12 anos, fui agredida numa calçada, do nada, ao virar uma esquina. Por uma mulher de rua? Não, que surpresa, por um homem de rua, provavelmente mais um louco. E colegas de escola que eram seguidas (naquele tempo não se usava termos como 'pedofilia'), repito, por homens, claro, e chegavam chorando na aula. Ou a minha ex-aluna, de dez anos, que veio desabafar comigo sobre as investidas, cada vez mais invasivas, do cunhado. Sim, um homem, adulto, casado com a irmã mais velha dela. Virei um fera, fiz relatório, acionei a escola, o conselho tutelar, acordamos a mãe dela pra vida e o cara saiu de perto. Como aquela pimenta me ardeu, e fico pensando em tantas outras que não conseguem desabafar, que não conseguem se safar. Então, eu diria, complementando o que o Caio disse, que qualquer rua de qualquer cidade é um corredor de hospício. E todas essas pessoas seguem soltas, nesse hospício coletivo, algumas domesticando seus instintos, outras simplesmente dando vazão a eles. Não, não feito os animais, deixemos os animais fora desta - eles tem suas próprias leis que cabem à sua espécie.
E há que domar nossos fantasmas, nossos demônios, e lidar com o medo. Toda hora o convite é "regue sua plantinha do mal", incessantemente. Onde isso vai parar, é o que todo mundo, todas as religiões, se perguntam, e criam-se refúgios nelas, e em todas as crenças possíveis.
E o Renato Russo sempre me emocionou com aquele verso - "...e você de que lado está? eu estou no lado do bem, com a luz, e com os anjos". Com um pouco de medo, esse agora da pieguice, quero estar nesse lado também, mais que quero, preciso, de luz. A escuridão precisa do contraste, e acho que, se a gente conseguir enxergar melhor o escuro, dá pra viver, quem sabe, até bem com ele, sem deixar que vaze, que se derrame pra fora e contamine, tanto, o outro.