3 de set. de 2010

De tudo ( excepcionalmente prolífico)

Me peguei pensando, depois de tanta avidez em ler o texto alheio, em ler sobre livros, sobre essa tal expressão "guilty pleasure". Nos blogs da vida, geralmente eu encontro as fatais listas do tipo "músicas/livros/artistas que tenho vergonha de gostar e/ou admitir que já gostei". O tal do prazer culpado, em tradução literal... E fiquei pensando se tenho isso, e é claro que fui enveredando pelo caminho de sempre - livros.
Eu lembro que comecei a vida nos livros pelos contos de fada. O primeiro livro-livro que eu li na minha tenra infância foi "Música ao Longe", do Erico. Nossa, que intelectual precoce, já lendo de primeira um consagrado, o maior escritor gaúcho. Que nada. Eu tinha oito anos, por aí, e vivia chafurdando um quartinho depósito na antiga casa familiar. Lugar de cacarecos familiares, papelada, vinis velhos. O quartinho era estreito, com prateleiras até o teto, que eu escalava, macaca, e ficava lá no alto, empoleirada, horas e horas. E lá no meio das provas de colégio dos meus irmãos mais velhos, tinha um livro, sem capa, com esse estranho nome. Música ao longe. Que seria isso? Então eu li, sentada, magricela ( bons tempos) e esquisita, li Erico Verissimo sem ao menos desconfiar quem era ele. E isso vem se repetindo,de alguma forma, até hoje. Só que hoje, faculdade de letras terminada, internet a todo vapor, informações pulando de todos os cantos, escritores adaptados pra cinema, esse "encontro às escuras" é cada vez mais raro. Alguma informação prévia, pra não falar na sequência lógica acadêmica, é inevitável. Ganha-se e perde-se com isso. Machado, por exemplo. Como seria um "encontro às escuras" com Machado? Adoraria saber. Ganha-se em sabedoria, o que acrescenta, porém, em informações ( e adorações ) de segunda mão. Perde-se o frescor da impressão virgem, tábula rasa - o impacto da obra, somente da obra, e nada mais vem ao encontro da mente - somente o conteúdo, como uma pedra bruta encostando em outra pedra bruta. Dá faísca. E dá saudade, essa sensação.
Mas eu falava dos prezeres culpados, do que se tem vergonha.
Sidney Sheldon? Li vários. Coração disparado com as peripécias de Tracey Whitney ( Se houver amanhã), que passou o cão na cadeia, presa injustamente, saiu e se vingou triunfalmente dos malditos que fizeram tudo aquilo com ela. Depois, bem depois, ouvi dizer que Sheldon era "lixo", "subliteratura", etc.
Sabrina, Júlia, Bianca. Li várias. As moças passavam perrengues, conheciam um cara incrível, várias coisas davam errado impedindo o amor deles, finalmente se ajeitavam, eles tinham uma incrível noite de amor e acabavam juntos, casando e sendo felizes pra sempre ( roteiro de QUALQUER comédia romântica ). O final feliz era obrigatório. Imagino que, se por algum erro, saísse alguma edição em que o casal não acabava junto, e a mocinha fosse, sei lá, viajar para aceitar um trabalho desafiador e renunciar por hora ao amor, haveria um motim entre as milhares de leitoras mundo à fora, livros seriam queimados em praça pública... Bom, não sei em que categoria incluir essas honoráveis coleções que tanto estrago fazem nas cabeças femininas.
Agatha Christie. Sim, ouvi falar que "não é literatura de verdade". Alguns exemplares já serviram para eu bater recordes - tipo, ler em questão de horas. Tipo jogo de pôquer, só se sai dali pra ir em caso de extrema urgência em ir ao banheiro. Poirot existe. Miss Marple existe. Coisa de gênio, materializar personagens dessa maneira.
No meio dessas incursões, caíam e caíam coisas em meu colo, passavam pelos meus olhos. Não existia Internet ainda, revistas eram caríssimas. Lá pela 5a série, meus irmãos no Segundo Grau, eu vivia fuçando nas leituras obrigatórias deles, lendo antes deles os livros que a professora obrigava, caiu na minha mão o "Manual de Literatura Brasileira", de um tal Sergius Gonzaga. Abri, e li. Que diferente, que interessante, tem um monte de autores variados, falava sobre a vida dos caras, inclusive do tal Erico, que havia escrito ( oba ) mais um monte de livros, que provavelmente deviam estar na biblioteca da escola...Sucessão de cliques na cabecinha fervente. Nunca vou esquecer da professora Elisa Mara, quando eu abri caminho no meio dos meus colegas, na bagunça da troca de período, com o Manual na mão. Ela parou, me olhou, e disse "O que tu tá fazendo com isso na mão, guria?", entre espantada e divertida... O ciclo vai se fechar, o arremate do ponto vai se dar lá adiante, anos depois fazendo cursinho, e tendo as aulas ( incríveis) com o professor Sergius, de que? Literatura Brasileira.
Mas divago. E volto: hoje não tenho vergonha, ou não quero ter, dos Sidney Sheldons, Sabrinas, Júlias. Me divertiram muitíssimo quando eu li, há tantos anos. Não tenho vontade de reler, de comprar, leria de novo, por acaso, se me caísse na mão, provavelmente acharia um sarro, ou o suspense não seria tão grande. Mas tudo isso, faz parte do meu "horizonte de expectativas", porque negar? Por que ter vergonha? "Livre, livre mesmo, é só aquele que não tem medo do ridículo", disse outro grande Verissimo, o filho. A boa literatura, como tudo mais na vida, é boa pra quem gosta do que lê, no momento que lê. E quem gosta de ler, vai ler sempre. vai ler o Diário Gaúcho e Sartre. Vai ler a folha de jornal caída, enquanto descansa da pintura da parede, ou da limpeza do vidro. Vai ler porque achou a capa bonita, mesmo que o autor seja um ilustre desconhecido. Não sei, caio no pieguismo, mas vá lá. Minha irmã adora livros de mistério e crime ( dela veio as Agathas); a outra adora a trilogia "Senhor dos Anéis" e livros de "romances de amor" ( adoro essa expressão); uma amiga tem "O Segredo" como livro de cabeceira; a senhora coleciona livros espíritas; a menina com carinha de Hermione devorou toda a coleção do bruxinho; minha colega de escola é aficcionada na série Crepúsculo. Já passeei um pouco por cada um desses estilos e enquanto eu estiver curtindo, beleza. Sei que Saramago, Paul Auster, Jane Austen, as irmãs Bronte, Erico, Clarice, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa são a chamada "grande literatura". Sei porque estudei, li a teoria, mas eles só são meus grandes favoritos, minhas possessões, meus delírios, meus "de cabeceira" porque instigam alguma coisa inominável, imprescindível, aqui dentro e, acima de tudo, dão prazer. Prazer dolorido, prazer emocionado, prazer culpado. Não importa. São grandes porque assim ficam aqui dentro.
O caso é que,os livros, assim como a pizza e o sexo, mesmo quando são ruins, são bons. Que que eu posso fazer? Aproveitar. A seleção natural tem esse adjetivo não é a toa...
Uma vez vi no Serginho Groismann um carinha, estudante de cinema, que respondeu a uma pergunta "o que você assiste em cinema" com "tudo. a gente tem que ver de tudo".
UPDATE: acabei de lembrar e verificar que é a SEGUNDA VEZ, e pior, SEGUIDA, que eu conto a história do quartinho de depósito etc. Além de leitora precoce, sou também CADUCA precoce. Que vergonha... Ia editar o post, mas, preciso praticar o ensinamento do guru LF Verissimo - seja livre não tendo medo do ridículo. Então, VIVA A LIBERDADE.