29 de ago. de 2007

A balada do Mancebo


para Paulo

lágrima no teu olho, na semi-escuridão
pude ver aquele brilho
não deixe que empurrem teu coração
pra fora do trilho

é muito mais superior a tua canção
que da tua flauta encantada sopra
essa flauta
é a tua criação
e tudo o mais
deve ficar à altura do chão

se for agora, para isso, o momento
que seja sempre um aprendizado
mesmo o mais inútil sofrimento
mais longe, mais claro, mais limpo
sempre foi, sempre será
o teu pensamento

27 de ago. de 2007

e no princípio

No sétimo dia Ele descansou
Mas só quando o médico te deu a primeira palmada
E você berrou
Foi que o mundo
Começou

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toda relação vira uma teia
você, quando vê, se enleia
sendo o de mosca o seu papel
te prendem, te devoram
e o doce
vira fel

e quando a aranha é o seu personagem
tira, do outro, à força
o direito à viagem
mais do que isso:
o da escolha do lugar
de aterrissagem

mosca, supostamente inocente
aranha, tecelã paciente

a teia é fina
mas é letal
você vai pra onde se destina
o amor nem sempre tem moral
e a picada
pode ser
fatal

the hours


as horas fazem companhia
aos livros de cabeceira
as horas, quem diria,
fizeram de Mrs.Dalloway
a melhor parceria

antes do fim

lá do fim da vida
alguém te acena

chegue atrasado nessa corrida
porque ainda vale a pena

gris

faz dias que o sol não aparece
até de dia anoitece
o céu não se ilumina
deve ter muito cinza
na caixinha de lápis de cor
divina

22 de ago. de 2007

Precisamente e pessoamente dito


"Trago dentro do meu coração
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto,
É pouco
Para o que eu quero”

Álvaro de Campos

A parte que me cabe

Crônica publicada na antologia "Matéria de Invenção 2", lançada na Feira do Livro de Porto Alegre em 2005.

A PARTE QUE ME CABE
Talvez não tenha sobrado para mim, na partilha divina, a delicadeza das ninfas, das fadas, das bailarinas, das princesas e das diáfanas em geral. Não me sobraram as mãos habilidosas das bordadeiras, das cozinheiras, das parteiras.
Por fim, o meu quinhão – eu decidi – iriam ser as palavras. Elas falariam por mim, e por elas eu viveria o que bem entendesse. Brincaria de manejar destinos, moveria montanhas ou multidões sem sair da abençoada solidão.
As palavras se mostraram pedras, então, e me disseram que decidir e só decidir era a parte mais fácil. E que viver com elas seria como carregar duros blocos para construções.
Sim, eu também descobri que as palavras pesam.
Espantam.
Desanimam.
Como é que se vence uma batalha muda?
E como manejar o material humano? Até que ponto um tipo pode ser interessante para que me renda uma história? Sento para escrever no estilo O Tempo e o Vento e saem, espremidas, ardidas, algumas linhas sobre o mesmo assunto de sempre: eu. Mas o que sonho são personagens fortes, misturar um pouco de fantasia e de pitoresco, e ser um pouco surpreendente. Por que esses referenciais tão fortes? Como sair dessas sombras enormes? Como não perder a imaginação caminhando por uma cidade árida?
E, acima de tudo: como conseguir escrever?
Para nenhuma dessas perguntas - e para todas as outras também - há qualquer resposta satisfatória. E assim, enquanto a tarde vai chegando ao fim e eu já escuto lá fora os primeiros grilos ( impossível não pensar em Mário Quintana ) decido desistir mais uma vez, e me jogar nos braços seguros de um Saramago, de um Caio Fernando Abreu, de um Machado, de um Pessoa, de um clássico que espera o filho pródigo, pacientemente, na estante.
Desisto pra voltar: amanhã cedo, semana que vem, a vida inteira. Só decidir é sempre a parte mais fácil. Não há fuga possível. Há somente as palavras.