Crônica publicada na antologia "Matéria de Invenção 2", lançada na Feira do Livro de Porto Alegre em 2005.
A PARTE QUE ME CABE
Talvez não tenha sobrado para mim, na partilha divina, a delicadeza das ninfas, das fadas, das bailarinas, das princesas e das diáfanas em geral. Não me sobraram as mãos habilidosas das bordadeiras, das cozinheiras, das parteiras.
Por fim, o meu quinhão – eu decidi – iriam ser as palavras. Elas falariam por mim, e por elas eu viveria o que bem entendesse. Brincaria de manejar destinos, moveria montanhas ou multidões sem sair da abençoada solidão.
As palavras se mostraram pedras, então, e me disseram que decidir e só decidir era a parte mais fácil. E que viver com elas seria como carregar duros blocos para construções.
Sim, eu também descobri que as palavras pesam.
Espantam.
Desanimam.
Como é que se vence uma batalha muda?
E como manejar o material humano? Até que ponto um tipo pode ser interessante para que me renda uma história? Sento para escrever no estilo O Tempo e o Vento e saem, espremidas, ardidas, algumas linhas sobre o mesmo assunto de sempre: eu. Mas o que sonho são personagens fortes, misturar um pouco de fantasia e de pitoresco, e ser um pouco surpreendente. Por que esses referenciais tão fortes? Como sair dessas sombras enormes? Como não perder a imaginação caminhando por uma cidade árida?
E, acima de tudo: como conseguir escrever?
Para nenhuma dessas perguntas - e para todas as outras também - há qualquer resposta satisfatória. E assim, enquanto a tarde vai chegando ao fim e eu já escuto lá fora os primeiros grilos ( impossível não pensar em Mário Quintana ) decido desistir mais uma vez, e me jogar nos braços seguros de um Saramago, de um Caio Fernando Abreu, de um Machado, de um Pessoa, de um clássico que espera o filho pródigo, pacientemente, na estante.
Desisto pra voltar: amanhã cedo, semana que vem, a vida inteira. Só decidir é sempre a parte mais fácil. Não há fuga possível. Há somente as palavras.
A PARTE QUE ME CABE
Talvez não tenha sobrado para mim, na partilha divina, a delicadeza das ninfas, das fadas, das bailarinas, das princesas e das diáfanas em geral. Não me sobraram as mãos habilidosas das bordadeiras, das cozinheiras, das parteiras.
Por fim, o meu quinhão – eu decidi – iriam ser as palavras. Elas falariam por mim, e por elas eu viveria o que bem entendesse. Brincaria de manejar destinos, moveria montanhas ou multidões sem sair da abençoada solidão.
As palavras se mostraram pedras, então, e me disseram que decidir e só decidir era a parte mais fácil. E que viver com elas seria como carregar duros blocos para construções.
Sim, eu também descobri que as palavras pesam.
Espantam.
Desanimam.
Como é que se vence uma batalha muda?
E como manejar o material humano? Até que ponto um tipo pode ser interessante para que me renda uma história? Sento para escrever no estilo O Tempo e o Vento e saem, espremidas, ardidas, algumas linhas sobre o mesmo assunto de sempre: eu. Mas o que sonho são personagens fortes, misturar um pouco de fantasia e de pitoresco, e ser um pouco surpreendente. Por que esses referenciais tão fortes? Como sair dessas sombras enormes? Como não perder a imaginação caminhando por uma cidade árida?
E, acima de tudo: como conseguir escrever?
Para nenhuma dessas perguntas - e para todas as outras também - há qualquer resposta satisfatória. E assim, enquanto a tarde vai chegando ao fim e eu já escuto lá fora os primeiros grilos ( impossível não pensar em Mário Quintana ) decido desistir mais uma vez, e me jogar nos braços seguros de um Saramago, de um Caio Fernando Abreu, de um Machado, de um Pessoa, de um clássico que espera o filho pródigo, pacientemente, na estante.
Desisto pra voltar: amanhã cedo, semana que vem, a vida inteira. Só decidir é sempre a parte mais fácil. Não há fuga possível. Há somente as palavras.
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