Como retorno triunfal ao blog, dedicarei alguns posts a temas a cerca do nosso abalado, polêmico e sempre instigante mundo feminino, afinal, Dia Internacional da Mulher - vá buscar sua rosa murcha nas melhores casas de comércio do burgo.
Fim de tarde, cabeleireira. As coisas boas de um salão de beleza - aquelas revistas todas que eu não gasto dinheiro, nunca, tipo Nova, Claudia, Contigo...Sento pra esperar - ser atendida na hora marcada? Em salão de beleza? Acho que é lenda urbana. Então, leitora voraz, me apego num texto sobre uma mulher que ficou perdida numa floresta, sozinha, por 17 dias. Ao meu redor, a parte ruim do salão de beleza, as mulheres conversando em voz alta ( geralmente irritante), aquelas outras sentadas observando, com olho de lince, cada movimento da cabeleireira no cabelo de alguém, pelo espelho. Mas a dona é gente boa e ótima profissional. Vou pra cadeira lavar as melenas, levo a revista junto, daqui a pouco tenho que ir pra cadeira cortar a franja, secar, não vai dar tempo de ler tudo. Nesse ínterim, sentada, sossegada, chega a manicure da casa, para ao meu lado e diz algo como: "E tu, que eu não ouvi a voz ainda até agora? Não falou nenhuma palavra! Tu é quieta, hein?" Bom, logicamente a moça era a voz mais ouvida dentro do estabelecimento até então, aquela da voz alta e irritante ( mas eu estava tão na paz, dentro da historinha da revista Claudia, que nem me afetou tanto, ouvia ao longe, só). A cabeleireira, que subiu ainda mais no meu conceito "gente boa" disse, "Ah, ela não é de falar muito. Eu, às vezes, até pago pra não falar". E eu, subitamente arrancada do meu silêncio, disse "Por que será que os quietinhos incomodam tanto os faladores?"
Várias perguntas me vieram à cabeça, naquele instante, com a costumeira desordem. Por que mesmo, ó Deus, por que o silêncio alheio incomoda tanto as pessoas? Por que os quietos desinquietam os falastrões? Por que aquela fulana, que vinha monologando há mais de meia hora, pra quem quisesse e quem não quisesse ouvir, tinha que se dirigir à mim, pobre criatura recolhida ao seu insignificante ( pelo visto nem tanto) silêncio e paz, e me invadir com perguntas, sendo que nunca a tinha visto antes, e não dera a mínima abertura para tanto?
Aí me veio uma frase que li há tempos na Internet, no blog Nervocalm Gotas - "os quietinhos são quietinhos porque os faladores nunca fazem perguntas". Ao que eu acrescentaria, de acordo com o episódio-salão de beleza - "nunca fazem perguntas com a única exceção da fatídica 'por que tu não fala nada?' "
E olha que esse é o salão mais light que frequentei na minha cidade. Pequeno, discreto, gente como a gente. Sim, os salões de beleza em geral são muito concentradores de mulheres. E mulheres, segundo reza a lenda, falam muito. Mas como evitar a generalização de tudo é, pelo menos pra mim, um aprendizado constante, vamos nos ater às exceções. Que podem ser muitas. E deixemos os quietinhos um pouco mais em paz. Talvez eles nãos sejam tímidos, apenas não tem nada à dizer naquele momento, o que é melhor do que abrir a boca só pra dizer besteiras - infelizmente a opção mais escolhida.
Ah, as mulheres quietas... Elas tem um mistério, elas despertam curiosidade, elas podem sim, ser interessantes. Quantas vezes eu vejo e ouço outras representantes do meu gênero alardeando, com orgulho, seu hábito de falar, falar, falar pelos cotovelos? Talvez seja a hora dos quietos, e quietas, especialmente, alardearem, com mais orgulho, sua capacidade de silêncio, de não ficar despejando sua vida ( com detalhes íntimos de brinde) pra tudo que é lado, e depois retornarem com a queixa que a siclana é fofoqueira. Calma lá, você foi contar pra colega, pra conhecida, pra moça do café,sobre sua vida sexual? Sobre seu antidepressivo? Sobre sua dívida enorme no banco? Como dizia Quintana, seu melhor amigo tem um melhor amigo, para o qual conta tudo, e conta de você inclusive. E isso que é melhor amigo...Agora imagine a moça do café, a conhecida, a...manicure?
Devo estar pecando pelo exagero, é o calor do momento. Claro que todos estão sujeitos a escorregões, a escapadelas verbais que virão te cobrar mais adiante. Não é o caso de pregar a total reclusão verbal, o que pode passar uma antipatia, uma arrogância ( outras pechas das quais os quietos sofrem...). Mas... pelo direito de ficar em silêncio, quando se pode ficar em silêncio. Pelo direito do quieto ser falador, também, quando tiver vontade, ou, para ser mais realista, quando tiver oportunidade, a oportunidade que os faladores podem conceder, também, vez por outra.
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