16 de nov. de 2011

Acontecer

Casulos quentes, confortáveis - dentro dele você penteia o cabelo, veste a roupa e vem para o mundo lá fora, até onde a corda invisível foi programada para ir. Os dias programados na agenda, de papel e mental. As tarefas enfileiradas como xícaras ( de líquidos quentes, confortáveis ), velhas conhecidas, amáveis e silenciosas. A rotina. O fio invisível também ordena a mente. Tudo ao redor é conhecido, e até mesmo o trajeto novo é familiar - se vai para o mesmo lugar. É fácil ocupar o varal, esvaziar a pia, aquecer a água, aquecer os pés.

Mas acontece. E sempre algo acontece. Só que de dentro do casulo é meio embaçada a visão, é sempre atrás do vidro, dos fios entrelaçados. Acontece ali dentro, frestras, por onde se escapa. O pé fica lá dentro, mas o corpo sai. A mente fica, a mente vai. O outro pé tropeça, traz tudo pra fora. E você fala com você mesmo - sabia que tanto assim, aqui fora, acontecia? O tempo todo, o tempo inteiro. Quem parou foi você. Quem se cobriu, foi você... Mesmo sozinho, mesmo confuso, mesmo perdido, o que acontece, e sem parar, vai acontecer lá fora. Talvez seja hora de ver isso sem nada que obstrua a visão. Sem vidros, sem fios. Vai fazer frio, vai chover na cabeça, vai gelar a alma. Mas vai ter a música do mundo tocando, tocando sem parar. E seus instrumentos. E os que executam esses sons.

Dá medo. Dá covardia. E por que não? Pensa. Os fantasmas vão continuar a arrastar as correntes aí dentro, os macacos vão pular com mais gana dentro do sotão, então, por que não? O casulo vai estar vazio quando você voltar, você nem vai reconhecer o lugar. E por que não? Algumas coisas, depois que acontecem, não podem ser ignoradas. Há um abrir de olhos. Há uma mudança na posição do prisma, da lente, da luz, do foco. E isso traz coisas novas a ver, que, veja só, estão sempre ali, passando, como a água do rio. Pode-se mergulhar, olha bem, pode se secar à margem, mergulhar de novo, pescar, acampar na beira, só caminhar. Tudo temporário. Tudo efêmero. Tudo acontecendo.

Porque estar vivo, se sentir vivo, é estar acontecendo também, de dentro, pra fora, é um acontecer junto, é simplesmente pensar antes no "sim" do que no "não", mesmo optando pelo não, o sim vai se tornando uma opção, cativa...

Acordar, acontecer... Os tempos jogam estes verbos na porta, no colo, na mente. Tem que ser.

5 comentários:

Anônimo disse...

sempre acompanhando.

mn

Anônimo disse...

sempre acompanhando.

mn

paulo adri disse...

sim talento! todos os sentidos...
bjo grande!
ane.

Carla Soares disse...

AconteSer! Adorei teu texto de novo, traços lispectorianos, a ideia de casulo...tem que ser a minha amiga :D beijo!

Anônimo disse...

Obrigada a vcs todos!
:)
Anne