Os dois potes são bonitos - brancos com a tampa verde-claro. Fazem um barulhinho bom, Marisa Monte (trilha tipo-nada-a-ver). Custaram, os irmãos quase gêmeos, e se fossem gêmeos, quase univitelinos, 35 pilas, quantia módica até, na loja de produtos naturais, atendida por uma simpática baiana assustada com o frio do Rio Grande, tchê. Módica quantia se operarem milagres, afinal, dorme-se com a inimiga, é arriscado. Dorme-se, acorda-se, vive-se com a inimiga. Morando bem lá dentro, escondida e confortável feito feto no útero do crânio dolorido e das "mioleiras tricotadas", pra citar Nisemblat. A ciência natural vai ajudar.
O gato passeia pelo muro. Batizei-o de Edgar, singela homenagem a Poe. Talvez eu fosse uma bruxa, se conto de fada a vida fosse. Vivendo assim, no meio das árvores, da pilha de folhas secas que se acumulam ao redor, escondida ao fundo, quem não sabe daqui, não sabe que aqui habito. E quem sabe tem o direito de fugir. Eu gostaria, por vezes, mas faltam forças, ou eu não as enxergo.
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“A única forma de suportar a existência é aturdir-se na literatura como em uma orgia perpétua.”
Gustave Flaubert
Li mais um Paul Auster. Li de uma sentada ( e de algumas deitadas, pra ser mais precisa). Virei sócia da biblioteca do Sesc aqui de minha dileta cidade. O momento encontro com as estantes de lá foi significativo: senti uma espécie de taquicardia, um deslumbramento, um quase sem-fôlego. As cores, as texturas, os livros alinhados na estante, que eu tocava, olhava, passeava pelo meio. Há quanto tempo eu não entrava numa biblioteca de verdade? Lembrei de outros momentos assim, na faculdade, mas lá a coisa era quase que diária, então, a sensação foi ficando esmaecida. Biblioteca pra mim é mitologia pura, ainda mais nesse momento Caio F. que ando, quando o fósforo que não acende é o fogo de Prometeu que não vinga, ó deuses. Engraçado foi a moça que entrou quase depois de mim: ela dizia que ia alugar livros, alugar. Mas a gente não paga por eles, senhorita ( eu vestia um vestido de época, em pensamento, então tinha que ser coerente na linguagem imaginária). A gente os pega na mão, dá pra moça simpática no balcão, ela registra e a gente leva pra casa. Assim é uma biblioteca: um empréstimo, uma taquicardia, um deslumbramento. Ela não consegui achar os do Sidney Sheldon, uma vez que o Crepúsculo, que ela desolada descobriu que tinha fila de espera, não estava lá. Indiquei onde estava, orgulhosa. Lembrando que havia lido vários do cara aos 11, 12, 13 anos de idade. Não, isso não é nenhuma nota de arrogância ou desdém - pra quem tem vício, até o ruim é bom. É como com os filmes - vê-se de tudo, o resto fica por conta da seleção natural.
E Paul Auster é um baita dum escritor. Ponto.
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“Parecia-me que a literatura agregava quartos ao mundo, assim como se agregam quartos a uma casa. E esses quartos eram infinitos e atraentes. Creio que os bons romances são como casas em que uma pessoa gosta de morar.”
Adolfo Bioy Casares
Ontem, sol - fui andar um tanto. Numa cidade "pequena", é fácil passar por lugares que guardam lembranças remotas, é só virar umas esquinas, subir e descer lombas, mudar alguns metros do trajeto. A escola da adolescência, a escola de freiras, construção antiga e bela, ainda está lá, ao alcance de alguns passos. A sala de aula que passei o último ano, com seus janelões incríveis onde a gente sentava quando ninguém iria reclamar, também estava. Nada de nostalgia da pesada, não: algo leve, quase que um vento memorial soprando, e dizendo quase nada, que é muito, no fundo: o tempo. Que passa. Por mais que não pareça. E todas as perguntas decorrentes disso, que é tão simples, são tão complexas e irrespondíveis. Que imenso paradoxo, a gente nunca entender o que decorre do que é estabelecido. Então fico andando, entre orgulhosa e preocupada de ser tão adolescente ainda, debaixo do sol, tentando fingir que não preciso passar no banco e nem pensar que era hora do almoço.
“ Ler bem é um dos maiores prazeres que a solidão pode proporcionar, porque, pelo menos segundo minha experiência, é o mais saudável do ponto de vista espiritual. Faz com que a pessoa se relacione com a alteridade, quer a própria, quer a dos amigos ou a de quem puder chegar a sê-lo. A invenção literária é alteridade e, por isso, alivia a solidão.”
Harold Bloom
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“ Nada é real se não o escrevo.”
Virginia Woolf
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