12 de mai. de 2006

ando ( entre os dedos)



Ando inquieta, ando nervosa. Ando pelas paredes internas subindo. Decerto estou de novo existindo.
Uso sobre o corpo, com infinitos fios tramados, coisas que chamam de roupas. Que tem de ser dobradas, guardadas, usadas, lavadas ( eventualmente passadas ), estendidas, dobradas. Guardadas, usadas, e por aí, adiante, um tênue conceito de moto-contínuo
Uso entre os dedos um cilindro que chamam de cigarro. Que tem de ser aceso, tragado e exalado e incomodar os entes alheios, portanto criticado e que faz um mal incalculado.
Uso no ombro um recipiente de couro ou imitação do mesmo material ou de pano ou de vovó-crochê conforme a indicação que o estado de espírito dê que chamam de bolsa que vira um poço sem fundo onde mãos frenéticas nunca acham as chaves nos momentos mais críticos e que também serve, dizem, para carregar objetos úteis-fúteis que atestam minha identidade ( ainda ) não encontrada
Ando inquieta, ando nervosa. Ando pelas paredes internas subindo. Desconfio que estou de novo existindo.
Uso entre os dedos um negócio retangular, as vezes de capa dura, outras mole, outras bem sebo-brochura, que chamam de livro. Que tem que ser aberto, e lido, que estraga os olhos, que tem que ter significados mítico-místico-antropofísicos e que provoca dependência irremediável e gastos além do orçamento para os maníacos, enquanto oferece alegre e perversamente aos globos oculares e mentes ávidas o delicioso escapismo

Uso entre os dedos, ou, para dar a exatidão dos que dela necessitam, debaixo deles, pequenos quadrados com letras gravadas que chamam de teclado-de-computador. Que tem um ruído confortador, que formam letras flutuantes que formam palavras flutuantes numa tela iluminada ( que chama de monitor, tela-de-computador ) pra depois formar frases que por sua vez formam textos.
E
sobre todas as coisas
é este o uso – depois de muitos meses de um negócio que chamam de bloqueio-criativo
que, inquieta e nervosamente
me atesta:
com toda a certeza, é mesmo muito provável que eu estou
de novo
existindo.
( e pelas paredes internas seguirei subindo ).

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse foi o texto que eu mais gostei... É dificil escrever com intensidade e sem egotrip. Tu achou o equilíbrio.