4 de mar. de 2010

Gramática dolosa

Até que ponto negar a realidade pra se alcançar algum tipo de felicidade? Palavra traiçoeira? Como todos os substantivos abstratos? Comportam tanto, muito mais do que alguns fonemas formadores: carregam um peso enorme que acaba se transferindo, ironicamente, aos ombros. Aos ombros da alma e os literais, "os ombros suportam o mundo". Exatamente: os meus, que são diferentes do próximo ( digo, do distante), é todo esse peso-pesado e estacionado. É como aquelas alegorias ( esplendores?) de carnaval que se usam nas fantasias, só que invisíveis. E a passarela dura uma vida toda, e a euforia, que num desfile de escola de samba dura até 50 minutos, é espicaçada em raros momentos do trajeto,que é "isso que chamam de vida".
Então os substantivos abstratos foram inventados pra definir as coisas que não podemos tocar, mas apenas sentir. Ou almejar sentir. Ou ter. Ou ser. E há tanto peso, adicional, além destes pra se carregar durante a vida - tudo o mais que se faz pra se ter vivos ( ainda que pesados, quase que insuportáveis) esses mesmos substantivos abstratos. Afinal, o quanto se danifica um sistema nervoso ou circulatório em nome dessa palavra, desse substantivo, dessa coisa abstrata, esse "amor"? Quanto de lágrimas, de dinheiro, de esforço mental e físico, pra pagar o preço? E o preço alto que é? Só para citar um dos Infinitos Abstratos, e para cada um está valendo todos esses danos.
Oh, doce alma gentil, saia da escuridão interna onde te encolhes, espreitando a vida, assim, feito verso de poesia portuguesa, e venha me dizer, ou mais ainda, me faça acreditar que todo o dano vale a pena, mesmo que tu ainda sejas pequena. Que, afinal, não se está sozinho nessa torre de castelo imaginário, com a arma apontada pra se defender, mas com as costas descobertas e à mercê do bote das palavras traiçoeiras.

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