4 de fev. de 2006

Enganadores da Morte





Estar no palco, estar em cena, seguir o mínimo movimento: ali, aqui, nós, atuadores, nós atores, nós os que mentimos por querer, os que mentimos por prazer. Quando estamos assim, de corpo fragilizado fortalecido pela mentira nossa de cada dia, abrimos os braços para a vida e damos as costas para a morte.
E a cada vez, a cada mentira pregada, puxamos nossa vida pra fora pra oferecer a quem queira estar ali para ver – para aqueles não tem medo de saber. Puxamos nossa vida e rimos da morte, porque criamos a ilusão de eternidade a cada palavra dita. Sim, porque o tempo pára, o tempo é extático, imóvel, enquanto estamos atores no palco: a morte que lá no fim nos espera não existe, brincamos um pouco de deuses e enganamos tempo e morte, primos irmãos, sempre à nossa espreita.
De braços abertos – dando as costas para a morte – enquanto o tempo não existe mais por hora, hora e meia, tudo o que pulsa, tudo o que impulsiona, tudo o que treme, sua, sangra e dói está ali, mesmo que invisível: o ator é a carne viva, é a ferida exposta, e o sangue que não se pode estancar, é a gota de suor que nasce logo que a outra já escorreu corpo abaixo. O ator transborda em palavra, em gesto, em olho. É o movimento que nasce e continua. É aquele que luta implacavelmente contra o efêmero, sabendo, sofrendo, rindo e chorando de um fim que um dia virá.
E enquanto o fim não vem, nós ali, no palco estamos, num moto-contínuo de corpo, mente, coração, carne e nervos. A dor que dá prazer, a palavra que pesa na língua, o corpo que mesmo exausto nunca descansa, a mente alerta, o grito preso na garganta.
Os braços abertos pra vida, de costas pro fim, burladores do esquecimento, farsantes do sofrimento, vândalos da repetição, loucos que acreditam que o tempo pára. E ele pára – não há morte no fim, porque correremos sempre dela, porque o palco é o nosso abrigo, nossa casa, nosso temor, nosso prazer fugaz, é para onde todos vão desembarcar.
Nós, enganadores da morte, desejamos a todos um bom espetáculo.

5 comentários:

Anônimo disse...

Aneeee, minha amiga louca-sã-diretora-confidente-escritora-invasora de vidas e personagens... talento talento talento, digo ta lento o tempo que se apressa em te anunciar ao mundo!! Mais esse dia chegará e estarei contigo! Sempre sempre sempre... Beijo no teu coração minha amiga! Textos lindos... Saudades...

Anônimo disse...

bah... tô esperando mais textículos, poder.

Rodrigo Westeuser disse...

Ane, coincidencias que nos unem e que me fazem cada vez mais pensar que nada é por acaso. Sensível coincidencia, sutil acaso. Fico ponderando palavras para descrever minha surpresa...e nao as encontro. Adoro te ler...Me sinto como se estivesse te ouvindo, como se pudesse tocar as palavras, como se elas se tornassem palpáveis à tela do computador. Beijos no coraçao..........R. Westphalen....

Rodrigo Westeuser disse...

Anne, querida, amada,
Venho te dizer que postei um novo texto no meu blog, espero que gostes.
Também venho indicar um blog que vais gostar, certamente:
www.horasinuteis.blogspot.com
Beijos e mais beijos no coraçao.
Rodrigo....

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