Poderosa Afrodite,
No dia de hoje, derrama de uma ânfora sagrada, algumas gotas de sabedoria, de classicismo, de elegância sobre nosso gênero tão desgastado.
Sabedoria, que essas gotas escorram sobre aquelas horas e horas esperadas pelo telefonema que nunca vem, e sobre as sequenciais justificativas que criamos para a ausência do mesmo, sempre inventando desculpas para o simples desinteresse. Que essas gotas, ó, Poderosa Afrodite, tenham o poder de paralisar mãos nervosas sobre teclados de celulares, impedindo os dedos de enviarem mensagens raivosas, descontroladas, humilhantes e pedintes de corações mendigos, sedentos de atenção, carentes profissionais.
Classicismo, ó Poderosa, sobre aquelas de nós que balançam a bunda em raio-x constante, fazendo disso o seu único meio de viver e criando, às vezes, a ideia de que quem estuda e trabalha realmente pra ganhar a vida é recalcada, invejosa e feia; sobre as que pernoitam nas camas de bronzeamento, açoitando o que é de mais frágil e perecível, nosso envoltório desprotegido ao câncer de pele; sobre as que estampam o Olimpo da beleza perfeita e nos obrigam, pobres mortais, a suar em bicas nas academias da vida e passar fome nas dietas obssessivas porque o modelo mais rechonchudinho já saiu de moda lá na Renascença.
Elegância, Poderosa Afrodite, elegância que escorra em suave gotas restauradoras sobre nossas reles cabeças quando as predadoras de nossa espécie perderem o respeito pelas fronteiras de nosso território, queimando nossa linha pelos orkuts, olhares, e-mails ou abordagem ao vivo e a cores. Elegância em doses ainda maiores quando o momento da discussão chegar, para que não recorramos a termos de baixo calão, reforçando, a cada palavra, o tal mito de que somos descontroladas, loucas e chatas.
Paciência, ó, Poderosíssima, paciência para suportar o nojo, a raiva, quando empurradas mais uma vez pelo machismo que ainda reina; para continuar, mesmo quando agredidas verbalmente ( e fisicamente) com supostas cantadas que na verdade são a eterna reafirmação do macho que se dá ao direito de expor sua lascívia sem limites; paciência para com aquelas nossas representantes que, orgulhosas de sua ignorância e de seu único meio de trabalho, o corpo, nos fazem, por tabela, suas semelhantes, embora partilhemos somente o mesmo gênero.
Paciência, ainda, para ensinar, tal qual professora que alfabetiza, os homens de que não somos a mãe fazedora de comida, lavadora de roupas e cuidadora de filhos e com o saboroso plus da ótima abertura de pernas.
Poderosa Afrodite, que isto está ficando sério demais - acima de tudo, bom humor, gotas generosas de bom humor, litros, um banho completo, para atravessar os períodos de seca criativa, de enchente hormonal, de invasões bárbaras à nossa intimidade, de entresafra entre o ser e não ser, sempre a questão. Bom humor pra rir de nós mesmas, mesmo quando não achamos a menor graça.
Dedicado à
Cecília, Mariana e Nina Nisemblat
Luciane Glaeser
Carla Soares e Viviane Sallati
Marlise Damin,Glau Barros, Vanessa Greff,
Ligia Sávio, Clotilde Favalli e Mara Jardim
Clarice, Virginia, Cecília, Dorothy, Ligia, Jane, Florbela, Emily
Marlise Damin,Glau Barros, Vanessa Greff,
Ligia Sávio, Clotilde Favalli e Mara Jardim
Clarice, Virginia, Cecília, Dorothy, Ligia, Jane, Florbela, Emily
e outras tantas que honram nosso gênero.
Voltemos agora à programação normal.
2 comentários:
por favor, fodalhona! que texto!
amei.
AMEI.
LUV.
EU.
Que maravilha!!
Bravo!
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