30 de abr. de 2011

há muito tempo, em uma galáxia...





bolachuda, banguela, perninha torta, praia badaladíssima de santa terezinha, saudade de ti,minha mãe-menina.

as horas

você fica de bobeira, juntando papéis, colocando o que estava ali, lá, não arrumando nada no fim das contas, é já é quase meio dia

você sai pra almoçar fora, caminhar de mãos dadas um pouco, mas já tem que ir embora, soltar a mão da outra, receber o beijo de despedida e o contato se corta, as peles se afastam, e já são 3 horas da tarde

você deita na cama na tarde de sábado, pra recuperar o sono atrasado de tantos dias, acorda com dor de cabeça é já são oito horas da noite

e o dia já escureceu, o mundo lá fora engana que está parado, e amanhã já é maio, e quatro meses já se passaram

as horas de ócio soam como desperdício

as horas de sono viram uma ponte entre o dia e a noite, uma ponte que se materializa em lugares diferentes, lugares bizarros de sonho, sonhos que trazem o passado o tempo todo à porta, batendo ( e não tem olho mágico, mas aquele olho psicodélico do desenho da Pantera Cor-de-rosa que leva a um mundo paralelo)

"tempo,tempo,tempo, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio"
está macio demais, escorrendo demais, rápido, veloz, incompreensível.

"tiiiiime, it's on my side, yes, it is".

yes, it is. but behind me, behind us, hunting like a hungry wolf.

8 de mar. de 2011

"Tem que ser macho pra parir" ( Mari Nisemblat)

Poderosa Afrodite,

No dia de hoje, derrama de uma ânfora sagrada, algumas gotas de sabedoria, de classicismo, de elegância sobre nosso gênero tão desgastado.
Sabedoria, que essas gotas escorram sobre aquelas horas e horas esperadas pelo telefonema que nunca vem, e sobre as sequenciais justificativas que criamos para a ausência do mesmo, sempre inventando desculpas para o simples desinteresse. Que essas gotas, ó, Poderosa Afrodite, tenham o poder de paralisar mãos nervosas sobre teclados de celulares, impedindo os dedos de enviarem mensagens raivosas, descontroladas, humilhantes e pedintes de corações mendigos, sedentos de atenção, carentes profissionais.
Classicismo, ó Poderosa, sobre aquelas de nós que balançam a bunda em raio-x constante, fazendo disso o seu único meio de viver e criando, às vezes, a ideia de que quem estuda e trabalha realmente pra ganhar a vida é recalcada, invejosa e feia; sobre as que pernoitam nas camas de bronzeamento, açoitando o que é de mais frágil e perecível, nosso envoltório desprotegido ao câncer de pele; sobre as que estampam o Olimpo da beleza perfeita e nos obrigam, pobres mortais, a suar em bicas nas academias da vida e passar fome nas dietas obssessivas porque o modelo mais rechonchudinho já saiu de moda lá na Renascença.
Elegância, Poderosa Afrodite, elegância que escorra em suave gotas restauradoras sobre nossas reles cabeças quando as predadoras de nossa espécie perderem o respeito pelas fronteiras de nosso território, queimando nossa linha pelos orkuts, olhares, e-mails ou abordagem ao vivo e a cores. Elegância em doses ainda maiores quando o momento da discussão chegar, para que não recorramos a termos de baixo calão, reforçando, a cada palavra, o tal mito de que somos descontroladas, loucas e chatas.
Paciência, ó, Poderosíssima, paciência para suportar o nojo, a raiva, quando empurradas mais uma vez pelo machismo que ainda reina; para continuar, mesmo quando agredidas verbalmente ( e fisicamente) com supostas cantadas que na verdade são a eterna reafirmação do macho que se dá ao direito de expor sua lascívia sem limites; paciência para com aquelas nossas representantes que, orgulhosas de sua ignorância e de seu único meio de trabalho, o corpo, nos fazem, por tabela, suas semelhantes, embora partilhemos somente o mesmo gênero.
Paciência, ainda, para ensinar, tal qual professora que alfabetiza, os homens de que não somos a mãe fazedora de comida, lavadora de roupas e cuidadora de filhos e com o saboroso plus da ótima abertura de pernas.
Poderosa Afrodite, que isto está ficando sério demais - acima de tudo, bom humor, gotas generosas de bom humor, litros, um banho completo, para atravessar os períodos de seca criativa, de enchente hormonal, de invasões bárbaras à nossa intimidade, de entresafra entre o ser e não ser, sempre a questão. Bom humor pra rir de nós mesmas, mesmo quando não achamos a menor graça.


Dedicado à
Cecília, Mariana e Nina Nisemblat
Luciane Glaeser
Carla Soares e Viviane Sallati
Marlise Damin,Glau Barros, Vanessa Greff,
Ligia Sávio, Clotilde Favalli e Mara Jardim
Clarice, Virginia, Cecília, Dorothy, Ligia, Jane, Florbela, Emily
e outras tantas que honram nosso gênero.

Voltemos agora à programação normal.

7 de mar. de 2011

Why so quiet?

Como retorno triunfal ao blog, dedicarei alguns posts a temas a cerca do nosso abalado, polêmico e sempre instigante mundo feminino, afinal, Dia Internacional da Mulher - vá buscar sua rosa murcha nas melhores casas de comércio do burgo.

Fim de tarde, cabeleireira. As coisas boas de um salão de beleza - aquelas revistas todas que eu não gasto dinheiro, nunca, tipo Nova, Claudia, Contigo...Sento pra esperar - ser atendida na hora marcada? Em salão de beleza? Acho que é lenda urbana. Então, leitora voraz, me apego num texto sobre uma mulher que ficou perdida numa floresta, sozinha, por 17 dias. Ao meu redor, a parte ruim do salão de beleza, as mulheres conversando em voz alta ( geralmente irritante), aquelas outras sentadas observando, com olho de lince, cada movimento da cabeleireira no cabelo de alguém, pelo espelho. Mas a dona é gente boa e ótima profissional. Vou pra cadeira lavar as melenas, levo a revista junto, daqui a pouco tenho que ir pra cadeira cortar a franja, secar, não vai dar tempo de ler tudo. Nesse ínterim, sentada, sossegada, chega a manicure da casa, para ao meu lado e diz algo como: "E tu, que eu não ouvi a voz ainda até agora? Não falou nenhuma palavra! Tu é quieta, hein?" Bom, logicamente a moça era a voz mais ouvida dentro do estabelecimento até então, aquela da voz alta e irritante ( mas eu estava tão na paz, dentro da historinha da revista Claudia, que nem me afetou tanto, ouvia ao longe, só). A cabeleireira, que subiu ainda mais no meu conceito "gente boa" disse, "Ah, ela não é de falar muito. Eu, às vezes, até pago pra não falar". E eu, subitamente arrancada do meu silêncio, disse "Por que será que os quietinhos incomodam tanto os faladores?"
Várias perguntas me vieram à cabeça, naquele instante, com a costumeira desordem. Por que mesmo, ó Deus, por que o silêncio alheio incomoda tanto as pessoas? Por que os quietos desinquietam os falastrões? Por que aquela fulana, que vinha monologando há mais de meia hora, pra quem quisesse e quem não quisesse ouvir, tinha que se dirigir à mim, pobre criatura recolhida ao seu insignificante ( pelo visto nem tanto) silêncio e paz, e me invadir com perguntas, sendo que nunca a tinha visto antes, e não dera a mínima abertura para tanto?
Aí me veio uma frase que li há tempos na Internet, no blog Nervocalm Gotas - "os quietinhos são quietinhos porque os faladores nunca fazem perguntas". Ao que eu acrescentaria, de acordo com o episódio-salão de beleza - "nunca fazem perguntas com a única exceção da fatídica 'por que tu não fala nada?' "
E olha que esse é o salão mais light que frequentei na minha cidade. Pequeno, discreto, gente como a gente. Sim, os salões de beleza em geral são muito concentradores de mulheres. E mulheres, segundo reza a lenda, falam muito. Mas como evitar a generalização de tudo é, pelo menos pra mim, um aprendizado constante, vamos nos ater às exceções. Que podem ser muitas. E deixemos os quietinhos um pouco mais em paz. Talvez eles nãos sejam tímidos, apenas não tem nada à dizer naquele momento, o que é melhor do que abrir a boca só pra dizer besteiras - infelizmente a opção mais escolhida.
Ah, as mulheres quietas... Elas tem um mistério, elas despertam curiosidade, elas podem sim, ser interessantes. Quantas vezes eu vejo e ouço outras representantes do meu gênero alardeando, com orgulho, seu hábito de falar, falar, falar pelos cotovelos? Talvez seja a hora dos quietos, e quietas, especialmente, alardearem, com mais orgulho, sua capacidade de silêncio, de não ficar despejando sua vida ( com detalhes íntimos de brinde) pra tudo que é lado, e depois retornarem com a queixa que a siclana é fofoqueira. Calma lá, você foi contar pra colega, pra conhecida, pra moça do café,sobre sua vida sexual? Sobre seu antidepressivo? Sobre sua dívida enorme no banco? Como dizia Quintana, seu melhor amigo tem um melhor amigo, para o qual conta tudo, e conta de você inclusive. E isso que é melhor amigo...Agora imagine a moça do café, a conhecida, a...manicure?
Devo estar pecando pelo exagero, é o calor do momento. Claro que todos estão sujeitos a escorregões, a escapadelas verbais que virão te cobrar mais adiante. Não é o caso de pregar a total reclusão verbal, o que pode passar uma antipatia, uma arrogância ( outras pechas das quais os quietos sofrem...). Mas... pelo direito de ficar em silêncio, quando se pode ficar em silêncio. Pelo direito do quieto ser falador, também, quando tiver vontade, ou, para ser mais realista, quando tiver oportunidade, a oportunidade que os faladores podem conceder, também, vez por outra.

3 de set. de 2010

De tudo ( excepcionalmente prolífico)

Me peguei pensando, depois de tanta avidez em ler o texto alheio, em ler sobre livros, sobre essa tal expressão "guilty pleasure". Nos blogs da vida, geralmente eu encontro as fatais listas do tipo "músicas/livros/artistas que tenho vergonha de gostar e/ou admitir que já gostei". O tal do prazer culpado, em tradução literal... E fiquei pensando se tenho isso, e é claro que fui enveredando pelo caminho de sempre - livros.
Eu lembro que comecei a vida nos livros pelos contos de fada. O primeiro livro-livro que eu li na minha tenra infância foi "Música ao Longe", do Erico. Nossa, que intelectual precoce, já lendo de primeira um consagrado, o maior escritor gaúcho. Que nada. Eu tinha oito anos, por aí, e vivia chafurdando um quartinho depósito na antiga casa familiar. Lugar de cacarecos familiares, papelada, vinis velhos. O quartinho era estreito, com prateleiras até o teto, que eu escalava, macaca, e ficava lá no alto, empoleirada, horas e horas. E lá no meio das provas de colégio dos meus irmãos mais velhos, tinha um livro, sem capa, com esse estranho nome. Música ao longe. Que seria isso? Então eu li, sentada, magricela ( bons tempos) e esquisita, li Erico Verissimo sem ao menos desconfiar quem era ele. E isso vem se repetindo,de alguma forma, até hoje. Só que hoje, faculdade de letras terminada, internet a todo vapor, informações pulando de todos os cantos, escritores adaptados pra cinema, esse "encontro às escuras" é cada vez mais raro. Alguma informação prévia, pra não falar na sequência lógica acadêmica, é inevitável. Ganha-se e perde-se com isso. Machado, por exemplo. Como seria um "encontro às escuras" com Machado? Adoraria saber. Ganha-se em sabedoria, o que acrescenta, porém, em informações ( e adorações ) de segunda mão. Perde-se o frescor da impressão virgem, tábula rasa - o impacto da obra, somente da obra, e nada mais vem ao encontro da mente - somente o conteúdo, como uma pedra bruta encostando em outra pedra bruta. Dá faísca. E dá saudade, essa sensação.
Mas eu falava dos prezeres culpados, do que se tem vergonha.
Sidney Sheldon? Li vários. Coração disparado com as peripécias de Tracey Whitney ( Se houver amanhã), que passou o cão na cadeia, presa injustamente, saiu e se vingou triunfalmente dos malditos que fizeram tudo aquilo com ela. Depois, bem depois, ouvi dizer que Sheldon era "lixo", "subliteratura", etc.
Sabrina, Júlia, Bianca. Li várias. As moças passavam perrengues, conheciam um cara incrível, várias coisas davam errado impedindo o amor deles, finalmente se ajeitavam, eles tinham uma incrível noite de amor e acabavam juntos, casando e sendo felizes pra sempre ( roteiro de QUALQUER comédia romântica ). O final feliz era obrigatório. Imagino que, se por algum erro, saísse alguma edição em que o casal não acabava junto, e a mocinha fosse, sei lá, viajar para aceitar um trabalho desafiador e renunciar por hora ao amor, haveria um motim entre as milhares de leitoras mundo à fora, livros seriam queimados em praça pública... Bom, não sei em que categoria incluir essas honoráveis coleções que tanto estrago fazem nas cabeças femininas.
Agatha Christie. Sim, ouvi falar que "não é literatura de verdade". Alguns exemplares já serviram para eu bater recordes - tipo, ler em questão de horas. Tipo jogo de pôquer, só se sai dali pra ir em caso de extrema urgência em ir ao banheiro. Poirot existe. Miss Marple existe. Coisa de gênio, materializar personagens dessa maneira.
No meio dessas incursões, caíam e caíam coisas em meu colo, passavam pelos meus olhos. Não existia Internet ainda, revistas eram caríssimas. Lá pela 5a série, meus irmãos no Segundo Grau, eu vivia fuçando nas leituras obrigatórias deles, lendo antes deles os livros que a professora obrigava, caiu na minha mão o "Manual de Literatura Brasileira", de um tal Sergius Gonzaga. Abri, e li. Que diferente, que interessante, tem um monte de autores variados, falava sobre a vida dos caras, inclusive do tal Erico, que havia escrito ( oba ) mais um monte de livros, que provavelmente deviam estar na biblioteca da escola...Sucessão de cliques na cabecinha fervente. Nunca vou esquecer da professora Elisa Mara, quando eu abri caminho no meio dos meus colegas, na bagunça da troca de período, com o Manual na mão. Ela parou, me olhou, e disse "O que tu tá fazendo com isso na mão, guria?", entre espantada e divertida... O ciclo vai se fechar, o arremate do ponto vai se dar lá adiante, anos depois fazendo cursinho, e tendo as aulas ( incríveis) com o professor Sergius, de que? Literatura Brasileira.
Mas divago. E volto: hoje não tenho vergonha, ou não quero ter, dos Sidney Sheldons, Sabrinas, Júlias. Me divertiram muitíssimo quando eu li, há tantos anos. Não tenho vontade de reler, de comprar, leria de novo, por acaso, se me caísse na mão, provavelmente acharia um sarro, ou o suspense não seria tão grande. Mas tudo isso, faz parte do meu "horizonte de expectativas", porque negar? Por que ter vergonha? "Livre, livre mesmo, é só aquele que não tem medo do ridículo", disse outro grande Verissimo, o filho. A boa literatura, como tudo mais na vida, é boa pra quem gosta do que lê, no momento que lê. E quem gosta de ler, vai ler sempre. vai ler o Diário Gaúcho e Sartre. Vai ler a folha de jornal caída, enquanto descansa da pintura da parede, ou da limpeza do vidro. Vai ler porque achou a capa bonita, mesmo que o autor seja um ilustre desconhecido. Não sei, caio no pieguismo, mas vá lá. Minha irmã adora livros de mistério e crime ( dela veio as Agathas); a outra adora a trilogia "Senhor dos Anéis" e livros de "romances de amor" ( adoro essa expressão); uma amiga tem "O Segredo" como livro de cabeceira; a senhora coleciona livros espíritas; a menina com carinha de Hermione devorou toda a coleção do bruxinho; minha colega de escola é aficcionada na série Crepúsculo. Já passeei um pouco por cada um desses estilos e enquanto eu estiver curtindo, beleza. Sei que Saramago, Paul Auster, Jane Austen, as irmãs Bronte, Erico, Clarice, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa são a chamada "grande literatura". Sei porque estudei, li a teoria, mas eles só são meus grandes favoritos, minhas possessões, meus delírios, meus "de cabeceira" porque instigam alguma coisa inominável, imprescindível, aqui dentro e, acima de tudo, dão prazer. Prazer dolorido, prazer emocionado, prazer culpado. Não importa. São grandes porque assim ficam aqui dentro.
O caso é que,os livros, assim como a pizza e o sexo, mesmo quando são ruins, são bons. Que que eu posso fazer? Aproveitar. A seleção natural tem esse adjetivo não é a toa...
Uma vez vi no Serginho Groismann um carinha, estudante de cinema, que respondeu a uma pergunta "o que você assiste em cinema" com "tudo. a gente tem que ver de tudo".
UPDATE: acabei de lembrar e verificar que é a SEGUNDA VEZ, e pior, SEGUIDA, que eu conto a história do quartinho de depósito etc. Além de leitora precoce, sou também CADUCA precoce. Que vergonha... Ia editar o post, mas, preciso praticar o ensinamento do guru LF Verissimo - seja livre não tendo medo do ridículo. Então, VIVA A LIBERDADE.

13 de jul. de 2010

A mitologia do depósito

Fiquei pensando (delay, delay) na morte do Saramago. E isso me levou a pensart numa frase do Borges, em que ele dizia que amava tanto certos livros que os considerava seus. Acho que pode ser aí o momento em que o mito se espatifa. Quando o mito ( seja o livro, o autor, a obra de arte em geral) dá a sensação de que nos pertence.
Muitas coisas na minha vida ( literária, pra começar) eu já tinha tomado pra mim antes de saber que eram mitos. Ou pelo menos, grandes figuras, grandes livros. veja bem: Erico Verissimo. Quando eu era criança pequena, na casa da minha família tinha uma espédie de mini-depósito. Um quartinho estreito, com prateleiras até o teto, onde se guardavam velharias, cacarecos familiares. O que tinha lá: ternos antigos do meu pai, com cheiro de naftalina; sapatos,provas de colégio dos irmãos, vinis, enfim, cacarecos. Eu costuma escalar, que nem macaco, aquelas prateleiras, me empoleirava lá em cima, pertinho do teto, e passava lá algumas boas horas, me entretendo com aquilo tudo. Pois bem, no meio da papelada lá na última prateleira, tinha um livro, sem capa, velhinho, jogado. O nome do livro era "Música ao Longe". O autor, Erico. Mas que sabia eu de Erico? Fui saber anos depois. Li o livro todo, encantamento puro. Assim, aos 8 anos, recebi aquele presente totalmente tábula rasa.
Assim acabou acontecendo com vários autores. Cem anos de solidão: eu tinha 13 anos, e a mania de pegar livros de autores assim, mitos, cuja existência eu nem suspeitava, muito menos de Nobel da Literatura e penduricalhos. O que me atraiu foi a capa daquela edição - uma carta de tarô, a Roda da Fortuna... Me assustei dos Cem Anos, não era época ainda. Devolvi sem passar das primeiras 5 páginas, barreira intransponível. Uns dois, três anos depois chegou a hora do deslumbramento.
Com o Saramago, eu já não era tão inocente - mas mesmo assim fui ao encontro sem grandes feedbacks, o que é sempre melhor, sempre preferível. Comecei errado, comecei com Jangada de Pedra - o primeiro dele não poderia ser o meu primeiro, acho. Depois, quando as coisas se assentam melhor dentro da gente com o passar dos anos, a gente se assenta melhor com alguns livros - e autores. Sempre correndo por fora, consegui ler outros livros dele antes de estudá-lo no final da faculdade de letras - o que é muito importante, ter a prática antes da teoria - no caso da literatura, que onde me movimento um pouco melhor. Claro que se for alguém da área da medicina a ideia é risivel.
Mas, voltando ao Borges, o Saramago, dentre outros autores, é o cara que tem alguns livros que parecem que são meus. Eu os quero, no entanto, talvez milhares sintam o mesmo, o que dá um certo ciúme... Depois parece que vira modinha besta. Mas não perde a graça se se for esperto - procurar uns meandros aqui e ali, não sair propagandeando demais certas entrelinhas, pelo menos pra não ter a decepção de perceber que tu não foi o único no mundo a ter aquele insight sobre determinado romance ou trecho.
E eu me pergunto, no final de tudo, digo, no final do post, como seria a vida sem essas pessoas. Sem esses livros. Talvez fosse diferente, se eu não gostasse de literatura. Tudo é história, tudo é contado, todos se contam, contam tudo a todo momento. A fofoca ínfima é um enredo. É a vida que alimenta a literatura. Mas as pessoas gostam mais de falar, muito mais que ouvir, e muito mais ainda do que ler. Que se há de fazer? Nada. Eu sigo usufruindo do meu prazer, da espécie de júbilo interior de ter passando pelas minhas mãos tantas coisas valiosas que meus olhos podem ter contato.
Credito um pouco ao vinho esse arroubo. Obrigado,seu vinho.
Boa noite e boa sorte.

26 de abr. de 2010

Seriando a vida ( no social life for a while)

Lost: ultimate fight. Dói pensar que vai acabar. Só mais 3 episódios, assim me parece. Orfandade antecipada... Parece ridículo, mas temporadas se confundem com momentos da minha vida. Difícil explicar, mas toda essa série talvez seja uma das coisas mais sensacionais.

The Office: custei a começar. Segunda temporada. Steve Carell estrelando; é incrível como esse ator é bom. As tramas são meio esquemáticas, mas tudo bem - tem um clima patético, agridoce, sarcástico e melancólico ao mesmo tempo. Os personagens, embora aparentemente não-profundos, são muito interessantes. Recomendo fortemente.

True Blood: vampires e soft sacanagem. Atores e atrizes bons e bonitos. Uma sociedade em que os vampiros são "integrados" e tomam sangue sintético. Óbvio que não vai ser bem assim... Sistema de castas interessante do mundo vampírico; a abertura é um caso à parte.

Dexter: o serial killer mais irresistível. O personagem do cara comum e inofensivo que guarda um monstro por dentro. Mas um monstro adorável, talvez pelo talento do ator. Roteiros muito excelentes e um elenco de apoio bem bom.

Six Feet Under. A melhor série de todos os tempos. Tá tudo lá. Pra chorar, pra rir, pra pensar. Mórbida, triste, engraçada, doce. Uma família que é dona de uma casa funerária ( que funciona na própria casa...). Cadáveres e dramas conjugados. O final é uma das coisas mais incríveis já vistas. Recomendo com muita força. Já terminou de ser exibida em 2005 ou 2006, por aí, mas vale a pena, muito.

Então é isso. Tanta coisa boa pra ver que dá vontade de só fazer isso. Mas e a vida, lá fora? O sol doura sem literatura, já dizia Pessoa, e eu contribuo: doura sem os seriados americanos também...

25 de abr. de 2010

fantasmas não pagam impostos

Domingo cinzento, frio, luz pardacenta. Digitando um trabalho de direito pra ganhar uns reais ( bem poucos, pensei, depois de sofrer, bufar e amaldiçoar um quadro medonho de tributos. deu vontade de cobrar mais caro...)lá pelas tantas, localizo a informação de que os templos religiosos, dentre outras instituições, tem imunidade tributária. Legal, né, fantasmas? Na minha rua tem um, digo, os fundo de um. Esses tempos ( digo, ano passado), passei por lá e vi uma imensa cruz vermelha encostada. Que troço mais macabro. E tinham vários carros importados encostados também por lá. Eh, coisa boa a imunidade tributária. Enquanto eu pago imposto de renda e ipva e fico lisa e dura, aceitando trabalhinhos de digitar. Foi só algo que ocorreu, assim, porque de que adianta, não é? Pensar nisso. Avante em nossa vida de gado, pecinhas ínfimas da engrenagem, pecinhas acuadas por não ter a grana necessária. Que nem ouvi esses dias - tuas contas são troco pro Roberto Justus.
Mas porque, porque escrever isso? Sei lá. De vez um quando uns lampejos de adolescência rebelde tremulam. Hoje se traduzem em postzinhos bobos que ninguém lê ( sorry, fantasmas, vocês leem).

3 de abr. de 2010

Becoming à flor da pele

Ando tão à flor da pele
Que qualquer beijo de novela
me faz chorar
ando tão à flor da pele
que meu desejo se confunde
com a vontade de não ser
ando tão à flor da pele
que a minha pele
tem o fogo
do juízo final

barco sem porto
sem rumo, sem vela
cavalo sem sela
bicho solto
um cão sem dono
um menino, um bandido
às vezes me preservo
noutras, suicido

Zeca Baleiro

Deve ser a primeira vez que eu coloco uma letra de música aqui, mas é que tão precisa, tão exata, cada palavra dela, que poderia ser epitáfio, ou "vitáfio" ( guimarãesroseando um pouco), enfim, porque ontem também assisti o "Becoming Jane" ( com aqueles patéticos títulos em português tipo "Amor e Inocência") e chorei, chorei, mais ou menos do meio pro fim. Por um lado foi uma experiência: o "à flor da pele" me fez sentir as dores da personagem, do tempo, da condição, como há muito tempo não acontecia. Muitas vezes, creio eu, se chora em filmes ( ou me beijos de novela, ou comerciais de tevê, ou uma simples imagem) por causa da própria dor; muitas vezes não: acho que sempre. Mas em alguns momentos, algo se acresce à esse prisma "egoístico"( g.roseando), a tal da empatia, que eu tanto custei a entender.
E o filme não é "grandescoisa" não, mas o espírito não anda muito exigente, nem pra rir, e muito menos pra chorar.
"Becoming Jane" é sobre a juventude de Jane Austen, e um suposto romance que ela teve, que seria inspiração para seus livros, os quais eu tanto gosto, e aos quais ela teve a delicadeza de dar finais felizes...

29 de mar. de 2010

só pra registro

Como eu acordei hoje com vontade de escrever ( o que tem sido raro, infelizmente) não posso deixar passar. Só pra dizer que tenho folga nas segundas pela manhã. Sim, pelo menos durante o ano de 2010 in-tei-ro, eu não trabalharei pelas segundas de manhã. ( E quartas o dia to-do, iahú). Isso vem trazendo todo um novo sentido para os domingos, especialmente para os domingos à noite. Simplesmente, eles não são mais aflitivos, desesperadores, tristes como tinham sido há, sei lá, mais de 10 anos. Sim, coisas assim me deixam mais feliz, vai ver que meus padrões estão se ajustando à realidade. Do tipo - fique feliz com o que tem, por mais simples que seja. Rá. Não sei se é bom ou ruim, mas que eu estou aproveitando e me agarrando a isso, estou.
Mas agora a manhã finda, eu preciso tomar banho, me arrumar, colocar algo no estômago e ingressar de novo no mundo que não é o meu lugar. Mas viva, viva o fim de semana que tem a manhãzinha de segunda bem acopladinho nele.
Achei que devia compartilhar com os fantasminhas daqui.

A saga dos sonhos - parte 1

Tenho tido ( tenho tido é péssimo, mas vá lá) tantos sonhos malucos ( mais do que o usual), pitorescos e etc, que não posso deixar de registrar. Acho que vou adotar o sistema de dormir com um bloquinho e caneta ao lado, pra acordar e escrever os enredos de cara, porque depois, conforme as horas vão passando, as historinhas vão se perdendo, é triste. Ficam só algumas imagens que vão empalidecendo e sumindo, feito as fotos do Marty Macfly. Bom, esta noite eu sonhei que o Sean Connery (!!!) fazia uns testes comigo no meu carro ( era tipo um examinador) e enchia ele de água, e conforme eu fosse limpando, era aprovada ou não. Hahaha. Depois, vem a parte realmente boa - eu estava com ele na cozinha da casa da minha família ( a qual eu estou habitando novamente, mas isso é outra história, não posso perder o fio da meada, nãooooo) e ele vinha e me abraçava e bem, rolavam uns amassos, sabe como é. O mais nítido era que ele era tão alto ( e forte...) que a minha cabeça encostava no peito dele ( e eu sou alta, hein.) Até aí tudo bem, tudo excelente, mas dali a pouco, eu me dava conta de que o Sean era meu pai na história. Merda, merda, merda, mil vezes merda.
As outras partes do sonho era eu dirigindo loucamente indo pra Glorinha (!) que era uma cidadezinha pra lá de simpática ( diferente da estrada com casas e comércio na beira, que é) e chegava na rodoviária, estacionava o carro e ia perguntar pra um senhor qual era o caminho certo pra um outro lugar, e ele me dizia que o ônibus tinha acabado de sair, e eu dizia que estava de carro, e daí lembrava que tinha deixado ele todo aberto com a minha carteira e mais alguns objetos de valor bem expostos.
Enfim. Acabei me lembrando de quando era criança, ou "adolescente pequena" ( acho que sou adolescente grande agora), e era bem fascinada pelo Sean, coroa, careca e puro charme.
Acho que devo pegar esse costume de escrever os sonhos, nem que seja pra acrescentar um pouco de nonsense nessa vida que anda tão rotineira.
PS.: Fui procurar fotos do Sean e fiquei cabreira com a historinha dele com o filho.

22 de mar. de 2010

Isso, que é tanto, e muito mais em kioskerman.com.ar.

4 de mar. de 2010

Gramática dolosa

Até que ponto negar a realidade pra se alcançar algum tipo de felicidade? Palavra traiçoeira? Como todos os substantivos abstratos? Comportam tanto, muito mais do que alguns fonemas formadores: carregam um peso enorme que acaba se transferindo, ironicamente, aos ombros. Aos ombros da alma e os literais, "os ombros suportam o mundo". Exatamente: os meus, que são diferentes do próximo ( digo, do distante), é todo esse peso-pesado e estacionado. É como aquelas alegorias ( esplendores?) de carnaval que se usam nas fantasias, só que invisíveis. E a passarela dura uma vida toda, e a euforia, que num desfile de escola de samba dura até 50 minutos, é espicaçada em raros momentos do trajeto,que é "isso que chamam de vida".
Então os substantivos abstratos foram inventados pra definir as coisas que não podemos tocar, mas apenas sentir. Ou almejar sentir. Ou ter. Ou ser. E há tanto peso, adicional, além destes pra se carregar durante a vida - tudo o mais que se faz pra se ter vivos ( ainda que pesados, quase que insuportáveis) esses mesmos substantivos abstratos. Afinal, o quanto se danifica um sistema nervoso ou circulatório em nome dessa palavra, desse substantivo, dessa coisa abstrata, esse "amor"? Quanto de lágrimas, de dinheiro, de esforço mental e físico, pra pagar o preço? E o preço alto que é? Só para citar um dos Infinitos Abstratos, e para cada um está valendo todos esses danos.
Oh, doce alma gentil, saia da escuridão interna onde te encolhes, espreitando a vida, assim, feito verso de poesia portuguesa, e venha me dizer, ou mais ainda, me faça acreditar que todo o dano vale a pena, mesmo que tu ainda sejas pequena. Que, afinal, não se está sozinho nessa torre de castelo imaginário, com a arma apontada pra se defender, mas com as costas descobertas e à mercê do bote das palavras traiçoeiras.

20 de out. de 2009

província's news


São raras, preciosas pedrinhas na beira do rio das palavras.

Risadas descontroladas e a identificação da cauda do escorpião com os chifres do carneiro - instrumentos de defesa que são o melhor ataque.

Acrobatas, as palavras de lá.

Metrificadas, as de cá.

Poder ser um pouco mais o que vai lá dentro, nem que seja pelos fios telefônicos que ligam as mormentes províncias habitadas, calcificadas de tédio e wish lists.

E a saudade, implícita.

Alguns fios de meada, são assim: sempre retomados do último arremate.

17 de out. de 2009

nightmare

Fazia tempo que não acontecia: tentar me mexer no entre-sono e não conseguir. O que era tão nítido e terrível no pesadelo hoje, horas depois, são apenas pálidas imagens sem nexo, e isso me dá pena, porque os sonhos são sempre, matéria prima. de, pelo menos, dar alguma pista, ínfima que seja, do caos que grassa lá dentro, nas profundezas.
Mas retorno ( é que a noite não parece ter acabado ainda, e já são 3 da tarde de sábado, eu gosto de tardes de sábado): altas da madrugada, pesadelo tenebroso, e eu tentando acordar daquilo, sem conseguir mover um músculo. tentava erguer uma mão, um braço, mexer um dedo do pé que fosse - nada. O coma do sono. Assustador. É então que se chora, conseguindo apenas fazer os movimentos mínimos faciais. E é então que se pensa, preciso alcançar o telefone e avisar alguém que eu estou paralisada, que os predadores do sonho ( que eu não tinha certeza total se era ainda e apenas só um pesadelo) estavam cada vez mais perto; mas num clarão de consciência no meio daquele emaranhado eu lembrei que o celular estava na sala e que eu não conseguia me mexer e como eu chegaria lá? E que, merda, não lembrava se tinha realmente chaveado a porta.
E nada, e força, e novas tentativas, e eu não conseguia me mexer.
Devem ter se passado horas ( que talvez sejam equivalentes a minutos nesse fundo de mar que nunca vê a luz que é o sono) mas eis que abro os olhos e consigo me mexer. Devagar, devagar. E, por fim, aquela sensação sem preço de que foi tudo, apenas, um pesadelo.
E até agora, horas depois ( sendo que pude dormir o sono dos justos, bem, dos injustos que seja, sem maiores emoções até as 10 e meia), parece que a noite ainda não acabou, nos meus movimentos lentos, na sensação de irrealidade persistente, até eu chegar aqui e escrever isso, agora, já.
Boa tarde, Stephen King.

6 de out. de 2009

fundos de gaveta

palavras tortas
não as lançamos sobre os telhados
desta, ou de qualquer outra madrugada

deixamos para o silêncio
a tarefa de nos intimidar

e sempre, para sempre sabemos
da inutilidade
da precipitação.

e o que fica para depois
acaba por não ficar:
morre com o dia que nasce
A casa das cinco mulheres.
Todas elas ali são mais jovens do que eu sou agora nesse exato momento, e vinte anos se passaram.
Nem sei se eu as conheço bem, até hoje.
Nem sei se me conhecem. Devem conhecer o que supõe. Que nem sempre é o que se é. Apenas hipóteses. Que se deixa entrever. Que se gostaria de dizer, por trás dos eternos clichês.
Duas tem filhos, três não tem.
Duas foram viúvas, e casaram de novo.
Todas sofreram seu tanto. Umas mais, por coisas de saúde e filhos, outras por perdas, outras pela solidão.
Duas moram sozinhas, três tem maridos.
Quatro tem olhos castanhos, uma tem cor de mel.
As cinco nasceram com cabelos castanhos, antes das tinturas.
Todas sem exceção tem forte tendência para engordar.
Duas eram fumantes, uma ainda fuma. Duas nunca fumaram.
Todas são professoras, gostando ou não da profissão.
Quatro cozinham muito bem, e uma das quatro cozinha melhor que todas.
Pra todas os anos passam.
E eu ainda sou a última.
E eu ainda: ali, naquela foto, eu ainda estou tão ali.

Casa sonho

Casa em Caxias do Sul.

Aleatórias

O frio da primavera: o frio da primeira verdade: o frio na alma.

A consciência plena,ferina, abrangente, por vezes aterradora, logo que se acorda: parodoxo vivo.

Os deuses que se adoram: nas telas, nas fotos, nas páginas, nos arquivos, nas estantes: o vazio do ateísmo rondando.

O pano com que se cobre, o pano que se paga, o pano que veste o manequim, o pano que estampa, o pano que não é para este corpo: o pano vermelho cegou o touro de raiva.

A resposta que não vem, a resposta que não vem a mais de uma década, a resposta depois de pausa longa, a resposta torta, a resposta perdida na posta distante: o cérebro é um ponto de interrogação que desbota rapidamente.

A unha encarnada que descasaca: a raiz do cabelo que aparece: as linhas de expressão sorrateiras, trabalhadoras na calada da madrugada: azulejo limpo, pano de prato bordado, fogão areado: mar vermelho em jatos invasores: feminismo

O silêncio: a solidão: o pó de capuccino: ruído das teclas: casas fechadas: conforto.

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Look at me
I’m your new thing
Taste me
Try me
Put your hands on me

Let me feel empty

Don’t take this from me
I want to be
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But please don’t think
About me
Just let me be
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I’m tired of being profound
I’m tired of being full of moral
I’m tired of being around

Just let me be
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